Jun 2, 2025 |
A cadeia televisiva norte-americana CBS voltou a apontar as suas câmaras ao coração de Moçambique. Dezassete anos depois da primeira reportagem, o programa “60 Minutes” regressou ao Parque Nacional da Gorongosa.
A equipa de reportagem encontrou um cenário radicalmente transformado: onde antes havia destruição e silêncio, hoje há vida selvagem em abundância e comunidades em desenvolvimento.
A reportagem, conduzida pelo veterano jornalista Scott Pelley, destaca o trabalho de reabilitação liderado por Greg Carr, empresário norte-americano que, em 2004, aceitou o convite do então Presidente Joaquim Chissano para restaurar o que fora um dos mais ricos ecossistemas africanos.
A recuperação começou com a remoção de mais de 20 mil armadilhas e prosseguiu com a reintrodução de espécies desaparecidas. Primeiro vieram os herbívoros, depois os predadores. Os leões, cuja população se resumia a cinco ou seis indivíduos mutilados por armadilhas, hoje prosperam naturalmente.
Mas segundo a CBS, a história da nova Gorongosa não é feita apenas de fauna. O parque tornou-se também um motor de desenvolvimento humano. Emprega actualmente 1.600 pessoas, apoia 89 escolas primárias e dinamiza projectos de saúde e educação em parceria com o Estado e doadores internacionais.
Um dos programas mais inspiradores é o dos Clubes de Raparigas, liderado por Larissa Sousa, que garante apoio escolar e social a cerca de 3.000 adolescentes em risco de abandono escolar e casamento precoce. “Porque não seria esta também uma missão de um parque?”, questiona Sousa. “Educação é conservação.”
A transformação estende-se à agricultura sustentável no Monte Gorongosa, onde famílias cultivam café em áreas antes devastadas pela guerra. Os grãos são comprados acima do preço de mercado e transformados localmente, criando um ciclo de rendimento e reflorestação.
A reportagem da CBS sublinha os desafios enfrentados: o ressurgimento da violência armada em 2013 e o impacto do Ciclone Idai em 2019, que destruiu mais de 100 mil casas. Carr, no entanto, recusa desistir. “Cada obstáculo reforça o nosso compromisso. Se as pessoas sofrem, é sinal de que precisam ainda mais do nosso trabalho.”
O modelo Gorongosa, que alia conservação à dignidade humana, é hoje referência internacional. Carr resume o espírito do projecto com as palavras do seu ídolo, Nelson Mandela: “Um parque não pode virar as costas ao povo. Deve ser do povo, para o povo.”
Foto: CBS




