A paisagem marinha de Bazaruto é um dos hotspots de biodiversidade do Oceano Índico Ocidental e, a nível global, um verdadeiro tesouro ecológico. Lar de recifes de coral e picos repletos de vida, lagoas e ecossistemas de águas profundas, bem como de espécies de megafauna amplamente ameaçadas, esta região reflecte tanto a resiliência da natureza como a sua fragilidade. Como cientistas do Bazaruto Center for Scientific Studies (BCSS), temos o privilégio de estudar estes ecossistemas, mas com esse privilégio vem também uma grande responsabilidade. Trata-se de um trabalho ambicioso, mas, se queremos realmente compreender e proteger a biodiversidade, a recolha de dados consistente e a longo prazo não é apenas valiosa—é essencial.
Na ciência marinha, estudos pontuais podem oferecer vislumbres úteis sobre a saúde dos ecossistemas ou a ecologia de espécies específicas, mas muitas vezes carecem da abordagem abrangente e da profundidade necessárias para captar tendências de longo prazo. Foi por isso que o BCSS lançou o Ocean Observatory, a primeira iniciativa de monitorização ambiental de longo prazo em África e no Oceano Índico. Através da recolha de dados em séries temporais—onde registamos sistematicamente variáveis ambientais e ecológicas ao longo do tempo—estamos a construir um conjunto de dados sem precedentes que nos permite acompanhar mudanças, identificar ameaças emergentes e apoiar estratégias de conservação baseadas em dados concretos.
Só em 2024, a nossa equipa passou mais de 800 horas a monitorizar o oceano, realizando múltiplos censos de megafauna através de mergulho, rigorosos levantamentos espaciais e recolhas sistemáticas de detritos marinhos. Registámos mais de 13.000 encontros com animais, reunimos 300.000 pontos de dados relativos a mais de 30 variáveis ambientais e expandimos a nossa investigação para incluir populações de aves marinhas. Estes esforços não são apenas números; são peças de um puzzle que nos ajudam a compreender como as alterações climáticas, a acidificação dos oceanos, a poluição e a sobrepesca estão a moldar os nossos mares.
A investigação científica não deve existir isoladamente. A nossa missão no BCSS é garantir que os dados que recolhemos se traduzem em resultados de conservação accionáveis e escaláveis. Ao fornecer dados de base às autoridades moçambicanas, redes de investigação internacionais e organizações de conservação, estamos a ajudar a compreender melhor a natureza, a identificar problemas, a inspirar acções e a informar políticas e medidas de protecção dos ecossistemas marinhos.
Um dos maiores desafios na conservação é a curta duração de muitos projectos. Sem um acompanhamento contínuo, as mudanças ambientais de longo prazo passam despercebidas, e os esforços para proteger a biodiversidade carecem frequentemente da base de evidências necessária. O BCSS está a trabalhar para mudar esta realidade, garantindo que os nossos conjuntos de dados permanecem publicamente disponíveis sob condições transparentes e razoáveis, promovendo a colaboração e capacitando os decisores com provas científicas robustas.
A ciência é tão forte quanto as pessoas que a levam adiante. É por isso que o BCSS se dedica a programas de formação científica, oferecendo oportunidades de investigação prática a jovens cientistas e estudantes moçambicanos. Ao dotar a próxima geração com as competências para recolher, analisar e interpretar dados marinhos, estamos a investir na sustentabilidade a longo prazo dos esforços de conservação na região. O nosso objectivo é criar um ambiente de partilha de conhecimento, onde investigadores locais possam liderar as estratégias de protecção marinha em Moçambique.
A nossa investigação vai além da monitorização da biodiversidade. Uma das nossas preocupações mais prementes é o problema crescente dos detritos marinhos. Ao longo dos anos, temos implementado um programa bem-sucedido de recolha e monitorização de resíduos em colaboração com a ANAC e a African Parks, recolhendo, classificando e analisando toneladas de lixo. No entanto, combater a poluição marinha por plásticos exige soluções que vão além dos esforços de limpeza. Estamos entusiasmados por explorar iniciativas regionais de reciclagem, desenvolvendo uma abordagem de economia circular para os resíduos plásticos. Se bem-sucedida, esta iniciativa poderá criar sinergias entre a gestão de resíduos e a conservação marinha, transformando o plástico de poluente em recurso. Estamos gratos aos nossos parceiros neste processo desafiante, incluindo a Universal Plastic e a Sustainable Seas Trust.
A conservação não é um sprint — é uma maratona. Os oceanos não mudam da noite para o dia, e a nossa abordagem para os proteger também não deveria mudar. O modelo do BCSS é ambicioso, mas assenta na firme convicção de que a monitorização consistente e a longo prazo de múltiplos ecossistemas é a chave para compreender e enfrentar os desafios ambientais.
À medida que continuamos a expandir a nossa investigação e a forjar novas colaborações, mantemos o compromisso com uma única visão: um futuro onde a biodiversidade marinha não seja apenas compreendida, mas activamente protegida através de decisões baseadas na ciência.
É uma tarefa grandiosa, mas, se queremos realmente fazer a diferença no terreno, não há outra maneira.
* Por Ekaterina Kalashnikova, BCSS Communications Lead & Cetacean Researcher
17 de Fevereiro de 2025


