Kambaku

Icon podcast
Vicente Bento, Founder da Green Stays

Vicente Bento, Founder da Green Stays

A importância da certificação nas Áreas Naturais Protegidas em Moçambique

Para que uma Área Natural Protegida possa seguir o caminho rumo à sustentabilidade é necessário que haja um esforço conjunto de diversos agentes, incluindo do Estado, do setor privado, da sociedade civil e das comunidades locais.

As Áreas Naturais Protegidas (ANP) são uma ferramenta fundamental na conservação da diversidade biológica, que ajudam a preservar as espécies ameaçadas, ecossistemas específicos e ambientes raros.​ As ANP são criadas não só para preservar e conservar as características endémicas, como também o seu património ambiental e cultural de uma área específica, para o desfrute das gerações presentes e futuras.​

As ANP são ainda responsáveis por garantir o planeamento eficiente e o desenvolvimento sustentável de serviços turísticos em conformidade com os requisitos legais e normativos.​

Uma correta identificação dos riscos e oportunidades no sector, servirá para promover a segurança dos visitantes, avaliar a qualidade dos serviços prestados nas áreas protegidas, mitigar os impactos na vida selvagem, na flora, na fauna e nas comunidades locais.​

Quando geridas corretamente, as atividades turísticas nas ANP permitem que os visitantes vivenciem o ambiente natural, enquanto aprendem sobre a importância da Conservação.​ Apesar do turismo ser o motor de muitas economias, em Moçambique é responsável apenas por 2,5% do PIB nacional, empregando cerca de 150 mil pessoas. O que fazer então para alavancar este sector e qual o contributo das certificações aplicáveis aos destinos, e em particular às Áreas Naturais Protegidas de Moçambique?

Impactes do turismo nos destinos

Apesar do turismo trazer inegáveis vantagens para os países, o seu crescimento desenfreado, e não planeado, traz impactes negativos não só para o Meio Ambiente, mas também para as Comunidades Locais. O tráfego de veículos em áreas naturais, e até mesmo a construção de infraestruturas turísticas de uma forma desregulada, pode levar à degradação da vegetação, à erosão do solo e à perda de biodiversidade. Em épocas de pico, os consumos de água e energia em hotéis e resorts podem exceder significativamente a capacidade de carga que o destino possui, levando à escassez destes preciosos recursos para quem mais precisa. Outro dos impactes ambientais negativos prende-se com a produção de resíduos, principalmente embalagens de plástico, vidro e lixo orgânico, neste último caso fruto do desperdício alimentar.

A nível social, o turismo pode também contribuir para a degradação cultural dos destinos, levando à perda das tradições e valores das comunidades, assim como a um aumento do custo de vida que muitas das vezes é insuportável pela população local e que obriga a deslocação da mesma para outros locais mais “baratos”.

Pensamento estratégico precisa-se!

É, pois, importante pensar de uma forma estratégica as questões do turismo para que todos se beneficiem deste sector e não apenas alguns. Para mitigar esses impactes, surgiram as certificações ambientais, que atestam o compromisso das empresas e dos destinos com a sustentabilidade. Entre as principais ações do Plano Estratégico do Turismo de Moçambique, encontra-se a promoção do turismo sustentável, a diversificação dos produtos turísticos e a melhoria dos padrões de qualidade dos serviços turísticos. Como tal, a certificação de destinos turísticos, deveria ser uma aposta clara do país não só para tornar os destinos mais sustentáveis como também para captar cada vez mais turistas sensibilizados para as questões ambientais e sociais.

Em que consiste este tipo de certificações?

Uma certificação ambiental do destino é um processo pelo qual um destino turístico é avaliado em relação às suas práticas sustentáveis, recebendo uma certificação reconhecida internacionalmente pelo cumprimento de determinados critérios ambientais, sociais e económicos. Este tipo de certificações do destino pode ser aplicado a destinos turísticos, tais como cidades, parques naturais, regiões turísticas ou praias.

Os critérios que geralmente são avaliados incluem a proteção dos recursos naturais e culturais do destino, a gestão adequada de resíduos, a promoção de práticas sustentáveis de turismo e a participação das comunidades locais no desenvolvimento da região.

Existem várias certificações, reconhecidas internacionalmente, que são concedidas a destinos que cumprem com os critérios de sustentabilidade, os quais respondem inclusivamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Algumas das mais conhecidas são a EarthCheck, a Biosphere e a Green Destinations. Todas elas não só avaliam a sustentabilidade dos destinos, como também os promovem a nível mundial, o que representa uma ferramenta eficaz de marketing para o destino, atraindo turistas que buscam destinos ambientalmente responsáveis e conscientes.

Normas específicas para Parques Naturais

Para enfrentar o desafio do turismo em​ áreas protegidas, a ISO (International Organization for Standardization) fornece já um conjunto de ferramentas com o objetivo de normalizar os processos dos Parques Naturais a nível internacional.​ Em 2005 foi estabelecido um Comité Técnico  (ISO/TC 228 – Turismo e serviços relacionados) de forma a fornecer ao sector do Turismo standards para ajudá-los a tomar decisões informadas. ​

A ISO 18065:2015, por exemplo, estabelece os requisitos para os serviços turísticos prestados diretamente pelas Autoridades das Áreas Protegidas Naturais, a fim de satisfazer os visitantes, priorizando a conservação das APN, excluindo as áreas marinhas protegidas.​ Ao implementar este tipo de normas, os Parques Naturais irão certamente aumentar a confiança e o grau de satisfação do cliente. Para além dessas vantagens mais comerciais, a implementação dos requisitos da norma ISO 18065 contribuir para o desenvolvimento das Comunidades Local, indo ao encontro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Conclusão

Para que uma Área Natural Protegida possa seguir o caminho rumo à sustentabilidade é necessário que haja um esforço conjunto de diversos agentes, incluindo do Estado, do setor privado, da sociedade civil e das comunidades locais. Desse modo, o estabelecimento de políticas públicas claras e objetivas para promover a sustentabilidade do turismo são essenciais. Muitos países optam por criar incentivos fiscais para empresas que adotam práticas sustentáveis, assim como definir normas ambientais para a atividade turística e hoteleira. Por outro lado, o setor privado pode também contribuir por meio da adoção de práticas sustentáveis na sua operação, como por exemplo a redução do consumo de energia e água, a gestão de resíduos e a conservação do património cultural e natural. O envolvimento da sociedade civil e da população local é também crucial, principalmente em zonas de conflito entre o homem e a fauna bravia. Todos temos o nosso papel no que à Conservação diz respeito! Façamos um esforço para a melhoria das nossas Áreas Naturais Protegidas.

—–

NEWSLETTER DO MUNDO NATURAL

Subscreva a nossa newsletter e receba notícias do mundo natural.