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Kambaku

Aquecimento do Oceano Índico poderá mudar pesca de atum em Moçambique

Mai 12, 2026 |

Um novo estudo científico indica que o aquecimento do oceano poderá alterar a pesca do atum bonito ou listado (Katsuwonus pelamis) no Índico ocidental e afectar economias costeiras.

A investigação, publicada na Frontiers in Marine Science, defende que o aquecimento do oceano impulsionado pelas alterações dos ecossistemas poderá modificar de forma significativa a distribuição do atum no oceano Índico ocidental, com reflexos directos nas pescas tropicais, na segurança alimentar e nas comunidades que dependem deste recurso.

O trabalho foi liderado por Norton Cossa, do Bazaruto Center for Scientific Studies (BCSS), e conta com co-autoria de Helder A. Machaieie, Anildo Nataniel e Dércio Maoze, também do BCSS, sob supervisão do Dr. Mario Lebrato, publicado na secção Global Change and the Future Ocean da revista, da acordo com o centro instalado no Bazaruto.

A partir de modelos analíticos avançados e de séries de dados de captura recolhidas ao longo do tempo, os investigadores procuraram perceber de que forma a variabilidade ambiental influencia a presença desta espécie e como essa relação poderá evoluir sob diferentes cenários climáticos futuros. A investigação recorreu a modelos aditivos generalizados, conhecidos como GAM, aplicados a registos de captura da Comissão do Atum do Oceano Índico e a variáveis oceanográficas obtidas através de bases de dados do Copernicus e do Bio-Oracle.

O atum é uma das espécies pelágicas tropicais com maior relevância ecológica e económica no Índico. Segundo a Comissão do Atum do Oceano Índico, são capturadas anualmente dezenas de milhares de toneladas desta espécie na região ocidental da bacia. Por isso, mudanças na sua distribuição podem ter consequências importantes para a actividade pesqueira e para as economias costeiras. O estudo recorda ainda que o oceano Índico é a segunda maior região produtora de atum a nível mundial.

Além do seu valor comercial, o atum funciona também como indicador da saúde do oceano. A sua presença está ligada a factores como a temperatura da superfície do mar, a salinidade, a produtividade oceânica, a profundidade da camada de mistura, a altura da superfície do mar, a concentração de clorofila-a e o pH. Em conjunto, estas variáveis ajudam a definir habitats marinhos dinâmicos, que se transformam ao longo do tempo.

O estudo centrou-se na relação entre a distribuição histórica do atum e a variabilidade ambiental no norte do Índico ocidental. Ao cruzar dados de pescas com informação oceanográfica, os autores avaliaram como a abundância e a localização da espécie poderão responder ao aumento da temperatura do mar. A área analisada estende-se entre as latitudes 14 graus sul e 14 graus norte e entre as longitudes 38 e 58 graus leste, numa zona marcada por fortes correntes de monção e pelo afloramento costeiro ao largo da Somália, fenómenos que influenciam a produtividade marinha e a distribuição dos cardumes.

Segundo os autores, os resultados sugerem uma redistribuição gradual da espécie, e não uma mudança abrupta. Ainda assim, essa deslocação poderá alterar a intensidade das capturas em diferentes zonas da bacia.

A investigação identifica várias tendências centrais, entre elas, que os habitats favoráveis ao atum deverão deslocar-se à medida que a temperatura do mar sobe, alterações na produtividade marinha poderão redefinir as áreas mais propícias à espécie, e os impactos não serão uniformes, com algumas regiões a registarem perdas e outras ganhos. Na prática, isso poderá mudar os padrões de captura e o acesso aos recursos pesqueiros.

Para os países do Índico ocidental, as implicações são simultaneamente ecológicas e económicas. Se a distribuição do atum deixar de seguir padrões relativamente estáveis, a gestão pesqueira tradicional enfrentará maiores dificuldades. Os autores defendem, por isso, abordagens adaptativas e baseadas no ecossistema, capazes de responder à natureza móvel e variável dos sistemas marinhos.

O estudo sublinha ainda a importância de observação continuada e de dados de longo prazo. Nesse contexto, o Ocean Observatory do BCSS desempenha um papel central na monitorização dos ecossistemas marinhos no Índico ocidental, contribuindo para compreender como o oceano está a mudar.

Os autores concluem que o aquecimento oceânico de origem humana deverá remodelar de forma desigual a distribuição do Katsuwonus pelamis na região. Enquanto algumas áreas poderão perder potencial de captura, outras poderão registar aumentos, em função das novas condições ambientais e da produtividade do oceano.

O trabalho foi financiado e apoiado pela Universidade Eduardo Mondlane e enquadra-se no modelo Resort-to-Research do BCSS, desenvolvido em parceria com o Kisawa Sanctuary, que procura ligar conservação, ciência e financiamento sustentável para apoiar investigação continuada. Segundo o artigo, o financiamento foi assegurado pelo programa UEM-ASDI 2017-2022 da Universidade Eduardo Mondlane, bem como pela iniciativa Resort-to-Research do BCSS e do Kisawa Sanctuary e pelo BCSS Ocean Observatory.

Foto: BCSS

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