Skip to main content

Kambaku

Cesária Huó estuda linguagem dos morcegos entre a Gorongosa e o Tunduru

Jun 10, 2025 |

A jovem bióloga moçambicana Cesária Huó está a transformar a forma como se compreende e protege os morcegos em Moçambique. O estudo que está a desenvolver na Gorongosa despertou o olhar da Revista Nature que destaca esta investigação.

De acordo com a Nature, esta cientista moçambicana baseada no Parque Nacional da Gorongosa, desenvolve investigação em ecologia comportamental, Huó dedica-se ao estudo das vocalizações sociais destes mamíferos voadores — uma área ainda pouco explorada na ciência africana.

Na imagem captada nos Jardins Botânicos de Tunduru, em Maputo, Huó documenta uma colónia de morcegos frugívoros da espécie Eidolon helvum. Esta espécie, conhecida por formar grandes agregações urbanas, é um exemplo do que ela pretende entender melhor: como e porquê os morcegos comunicam entre si.

“À medida que aprendemos sobre os diferentes tipos de vocalização, podemos compreender melhor as fases da vida de um morcego e talvez sermos capazes de conservar as espécies com menos intervenções do que agora”, explica. “Por exemplo, existem vocalizações específicas para a época de acasalamento, e algumas espécies têm apenas uma época reprodutiva ao longo de dois ou três meses do ano. Podemos quantificar e reconhecer melhor esse período se nos concentrarmos nos sons que os morcegos emitem”, acrescenta.

A investigação de Huó começou durante o seu mestrado, onde estudou duas espécies pouco conhecidas: o morcego-de-cara-fendida egípcio (Nycteris thebaica) e o morcego-de-focinho-folhado de Sundevall (Hipposideros caffer). Através de gravações de campo e análises acústicas, conseguiu identificar 11 vocalizações distintas numa das espécies, e 6 na outra — revelando um nível de complexidade surpreendente na comunicação destes animais.

O trabalho exige equipamento técnico especializado. Huó utiliza detectores de morcegos que registam os sons em ultra-sons emitidos por estes animais, invisíveis ao ouvido humano. Programas como o Kaleidoscope Pro e o Raven Pro permitem-lhe converter esses sons em sonogramas — gráficos que traduzem as ondas sonoras em padrões visuais, facilitando a análise de frequência, duração e harmónicos.

Para além de ser uma área científica inovadora, o trabalho de Cesária Huó assume uma importância estratégica para a conservação. Os morcegos desempenham papéis ecológicos cruciais como polinizadores, dispersores de sementes e controladores de insectos. Contudo, continuam a ser mal compreendidos e, muitas vezes, alvo de estigmatização.

Ao revelar os segredos das suas vozes, Huó abre caminho para uma nova abordagem científica em Moçambique — uma que escuta, em vez de perturbar. O seu trabalho representa não só um avanço no conhecimento científico, mas também uma inspiração para a próxima geração de conservacionistas africanos.

Foto: Nature

NEWSLETTER DO MUNDO NATURAL

Subscreva a nossa newsletter e receba notícias do mundo natural.