Mai 13, 2025 |
A emissão inaugural de créditos de carbono da iniciativa Yambone, prevista para 2025, marca o início de uma nova era em Chipanje Chetu. Pela primeira vez, serão as comunidades a gerir directamente os recursos financeiros gerados.
Este é um passo histórico rumo à autonomia na conservação ambiental, com as populações locais a ocupar o centro da acção, implementando projectos delineados por elas nos seus Planos de Desenvolvimento Comunitário.
A iniciativa de conservação Yambone, que opera na região de Chipanje Chetu, junto à Reserva Especial de Niassa, lançou as bases institucionais, ecológicas e sociais para um modelo de conservação sustentável orientado pelas comunidades locais.
Chipanje Chetu é uma Área de Conservação Comunitária situada no distrito de Sanga, na província do Niassa. Com uma extensão de 6.500 km² de floresta miombo em estado quase intocado, esta zona foi oficialmente delimitada em 2005 com o objectivo de beneficiar as comunidades locais através de um modelo de conservação gerido pelas próprias populações.
Cinco grupos de aldeias — Lilumba, Maumbica, Nova Madeira, Matchedje e Segundo Congresso — habitam este território, profundamente ligado à sua subsistência, cultura e identidade colectiva. Além das florestas, Chipanje Chetu abriga rios, savanas e uma diversidade notável de fauna e flora, com espécies endémicas. Para os seus habitantes, os recursos naturais da região não são apenas meios de sobrevivência, mas também fontes de espiritualidade, memória histórica e pertença.
De acordo com a organização, que acaba de apresentar o seu relatório de impacto relativo ao ano de 2024, garantiu nesse período os alicerces de um esforço mais amplo que visa garantir o equilíbrio entre a protecção ambiental e o desenvolvimento humano naquela área protegida do norte de Moçambique.
Em 2024, a conservação da fauna em Chipanje Chetu deu um passo significativo com a intensificação das acções de monitorização. Durante vinte dias de trabalho de campo, foram colocados colares de rastreamento em nove animais selvagens, uma iniciativa essencial para compreender os seus movimentos, hábitos e ameaças.
Entre os animais marcados destaca-se um leão macho, três elefantes e três búfalos — duas fêmeas e um macho. Também foram colocados colares de monitorização numa palanca fêmea (sable) e numa fêmea de Eland. Este tipo de acompanhamento permite reunir dados científicos valiosos para a gestão ecológica da região, ao mesmo tempo que reforça as estratégias de protecção de espécies vulneráveis.
Estes esforços reflectem o compromisso contínuo de Yambone em conjugar conservação baseada em evidência com o envolvimento comunitário, assegurando que as decisões sobre o uso e protecção dos recursos naturais sejam informadas, sustentáveis e participativas.

Entre os marcos mais significativos destaca-se a atribuição oficial da licença REDD+ por parte do Governo de Moçambique. Este feito posiciona Yambone, segundo os seus responsáveis, como o principal projecto de carbono do país, elevando o seu estatuto para além do enquadramento legal. De acordo com a instituição é um testemunho do compromisso das comunidades locais, das equipas técnicas e das lideranças envolvidas na protecção ambiental. A licença abre igualmente caminho para a conversão directa dos esforços de conservação em benefícios concretos para as populações residentes.
Com o objectivo de assegurar uma gestão clara e equitativa, foram implementadas estruturas normativas fundamentais, entre as quais acordos de uso da terra, códigos de conduta, mecanismos de reclamação e procedimentos operacionais normalizados. Estes instrumentos conferem direcção e responsabilidade tanto às equipas de terreno como às comunidades parceiras e restantes actores implicados na salvaguarda deste território.
A relação com as comunidades locais foi substancialmente fortalecida ao longo do ano. Iniciativas como o Programa de Inspectores Comunitários, o projecto de Segurança Alimentar e a vertente educativa Umi Wango consolidaram-se como pilares da acção em Chipanje Chetu. O diálogo permanente com líderes comunitários, especialistas em conservação e grupos de mulheres permitiu alinhar as intervenções com as reais aspirações da população.
Apesar dos progressos assinaláveis, os desafios permanecem. A pressão sobre os recursos naturais, agravada pela agricultura itinerante, continua a colocar em risco o equilíbrio entre produção alimentar e conservação florestal. A criação de mecanismos preventivos e de alternativas viáveis é urgente, bem como o reforço das capacidades dos comités de gestão locais.
Na zona sul, Macaloge enfrenta investidas de ocupação externa que colocam à prova os sistemas de vigilância e governação ambiental. A norte, a caça furtiva e o pastoreio transfronteiriço oriundo da Tanzânia ameaçam comprometer os ganhos obtidos. Em simultâneo, persistem carências nas áreas da saúde e da agricultura, exigindo investimentos superiores aos actualmente disponíveis. Os atrasos no processo de emissão de créditos de carbono acentuam estas fragilidades, travando o acesso a fundos essenciais.
Ao fazer um balanço de 2024, Yambone reconhece um ano de construção paciente, diálogo constante e compromissos firmados. A trajectória seguida confirma que o caminho da conservação sustentável em África passa pelo envolvimento activo das populações locais — provando que a protecção da natureza e o progresso humano podem, e devem, caminhar lado a lado.
Fotos: Yambone




