Jul 22, 2025 |
África enfrenta uma crise silenciosa na pesca de água doce, de acordo com um novo relatório da World Wildlife Fund (WWF) divulgado esta semana, que alerta para um cenário de emergência em todo o continente.
O estudo, divulgado a poucos dias do arranque da 15.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Zonas Húmidas (COP15), que decorrerá no Zimbabué entre 23 e 31 de Julho, lança um apelo urgente à acção coordenada para proteger os ecossistemas de água doce africanos.
Um dos exemplos destacados é o Lago Niassa, conhecido também como Lago Malawi, no qual a situação é já preocupante: as populações do emblemático Chambo, a Tilápia Karonga (Oreochromis karongae) que assegura alimentação a milhares de famílias, registam quedas abruptas. Estima-se que esta espécie caiu 94% em apenas uma década de 2006 a 2016. A perda deste recurso tem impacto direto na segurança alimentar das populações ribeirinhas da província de Niassa e do Malawi, onde o chambo é produto de subsistência.´
Outro dos exemplos cujo impacto se faz sentir em Moçambique verifica-se na planície alagada do Zambeze, onde as capturas de espécies-chave sofreram quebras de até 90%, reflectindo a gravidade da degradação ambiental e da sobre-exploração a que estes ecossistemas têm sido sujeitos.
Relatório produzido e divulgado pela WWF revela que um em cada quatro peixes de água doce africanos está ameaçado de extinção. Moçambique figura entre os países mais vulneráveis, mas também com maior potencial de recuperação.
O estudo da WWF identifica os principais factores de risco que afectam os peixes de água doce em toda a África: a destruição de habitats, causada pela expansão agrícola, urbanização, extração de areias e construção de barragens; a sobrepesca e uso de técnicas destrutivas, incluindo redes ilegais e utensílios como redes de mosquito; a poluição, resultante da agricultura e da descarga de resíduos urbanos e industriais; e espécies invasoras e mudanças climáticas, com impacto directo nos ciclos de reprodução, nos fluxos dos rios e na temperatura dos ecossistemas aquáticos.
Apesar do cenário preocupante, Moçambique tem dado passos firmes para inverter a tendência. A aprovação, em 2020, de uma nova Lei das Pescas foi elogiada por organizações internacionais, ao permitir maior envolvimento das comunidades na gestão local e introduzir mecanismos de co-gestão participativa.
A realização da COP15 da Convenção de Ramsar este mês representa uma oportunidade ímpar para os países africanos, incluindo Moçambique, assumirem uma liderança na protecção das águas interiores. O relatório da WWF propõe um Plano de Recuperação de Emergência para a Biodiversidade de Água Doce, com seis pilares de acção imediata: restaurar os fluxos naturais dos rios; melhorar a qualidade da água; proteger habitats críticos e espécies ameaçadas; pôr fim à exploração insustentável; controlar espécies exóticas invasoras; e remover barreiras obsoletas e garantir rios livres.
O destino dos peixes de água doce em Moçambique está intimamente ligado ao futuro alimentar do país e à saúde dos seus ecossistemas. A perda de biodiversidade nas águas interiores poderá traduzir-se não só em insegurança alimentar, mas também em riscos económicos e sociais para milhões de cidadãos que dependem direta e indiretamente das pescas.
Foto: isafiri.com




