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Kambaku

El Anatsui dá nova vida ao metal descartado no seu estúdio de Nsukka

Fev 10, 2026 |

No estúdio de Nsukka, na Nigéria, o artista plástico ganês El Anatsui transforma cápsulas de garrafas em “tecidos” metálicos que brilham e mudam.

Entre restos de metal e fragmentos sem destino, sobressaem milhares de cápsulas de garrafas de bebidas alcoólicas, recolhidas em destilarias locais. Antes de se tornarem arte, são separadas, achatadas e torcidas, ganhando reflexos de ouro, bronze e cobre que fazem esquecer a sua origem industrial.

A oficina funciona com precisão quase ritual. Assistentes repetem gestos aprendidos ao longo do tempo, perfuram metal, passam fio de cobre muito fino e unem pequenas peças até formarem grandes superfícies flexíveis.

O resultado são painéis que ondulam e caem como pano, apesar de serem feitos de elementos rígidos, num processo em que a sucata evolui lentamente para escultura, de acordo com a Prazzle.

Nascido em 1944, em Anyako, no Gana, El Anatsui cresceu num contexto em que os objectos do quotidiano transportavam histórias. Formou-se em Kumasi, no College of Art da Kwame Nkrumah University of Science and Technology, e, no início dos anos 1970, mudou-se para a Nigéria, onde começou a ensinar na Universidade de Nsukka. A sua obra inicial passou pela madeira e pela cerâmica, meios através dos quais explorou linguagem, identidade e a memória inscrita na cultura material africana.

Foi no final dos anos 1990 que o metal do dia-a-dia se impôs como matéria central. Cápsulas de garrafas, recortes de alumínio e outros resíduos de consumo abriram-lhe um vocabulário visual novo. O que começou como experiência tornou-se uma linha de trabalho reconhecida pela escala e pela capacidade de reinventar o que se entende por escultura contemporânea.

O método mantém uma lógica de montagem paciente. As cápsulas chegam em sacos, amolgadas e desbotadas, marcadas por usos anónimos. No estúdio, são trabalhadas à mão em milhares de unidades, depois ligadas com fio de cobre, como se cada fragmento fosse um módulo de um grande mosaico. As superfícies resultantes sugerem, conforme a luz e o ângulo, a textura de tecidos como o kente, a densidade de uma malha metálica ou o brilho instável da água ao entardecer.

A projecção internacional consolidou-se quando estas “mantas” metálicas chegaram a grandes palcos e museus. A participação na Bienal de Veneza de 2007 apresentou ao público global uma escultura que parecia flutuar, mais próxima do têxtil do que do bloco pesado tradicional. Em 2015, o artista regressou a Veneza para receber o Leão de Ouro de carreira, distinção que confirmou a influência de um trabalho hoje presente em instituições como o Brooklyn Museum, a Tate Modern e o Metropolitan Museum of Art.

No centro de tudo permanece uma ideia simples de que o descartado não é fim, é matéria em espera. Nas mãos de El Anatsui, a luz não serve apenas para iluminar metal, torna visível uma filosofia de transformação contínua, em que o comum e o esquecido podem voltar a ter futuro.

Fotos: alaraby.co.uk e prazzlearts.com

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