Jun 30, 2026 |
O primeiro levantamento científico completo do ecosistema de Techobanine documentou Phestilla viei no sul de África, espécie de lesma-do-mar coralivora descrita pela primeira vez há apenas cinco anos na Ásia.
A descoberta ocorreu durante o inventário científico noticiado na semana pasada pela KAMBAKU, realizado pela Fundação Likhulu em parceria com o Parque Nacional de Maputo. Entre as 48 espécies de nudibrânquios identificadas ao longo de 17 pontos de mergulho, uma em particular chamou a atenção dos investigadores.
Phestilla viei é uma espécie relativamente recente na ciência. Foi descrita pela primeira vez em 2020 pelo investigador Dr. Rahul Mehrotra, na sequência da sua descoberta na ilha de Koh Tao, na Tailândia, pelo mergulhador e cientista cidadão Spencer Arnold. O trabalho foi publicado na revista Marine Biodiversity e a espécie foi batizada em homenagem a Mr. Vie Panyarachun, um entusiasta de nudibrânquios da Tailândia reconhecido pelo seu contributo para o registo e documentação destas criaturas nas águas tailandesas.
A espécie pertence à família Trinchesiidae e ao género Phestilla, que agrupa actualmente nove espécies reconhecidas, oito das quais são coralivoras obrigatórias, ou seja, alimentam-se exclusivamente de coral, cada espécie associada a apenas um género ou espécie de coral específico. A Phestilla viei foi identificada inicialmente a alimentar-se de Pavona explanulata, um coral da família Agariciidae. A sua distribuição conhecida estava restrita ao Oceano Indo-Pacífico, até agora.
Do ponto de vista morfológico, a Phestilla viei é um animal de corpo alongado, com até 28 milímetros de comprimento, de coloração dorsal branca translúcida a amarelo pálido e laterais acastanhadas. Os seus cerata, estruturas filamentosas externas que funcionam como guerras, são translúcidos com pigmentação castanha, resultante da presença de dinoflagelados unicelulares, os chamados zooxantelas, provenientes dos corais de que se alimenta. Uma das suas características mais distintas é um pericárdio com uma protuberância bolbosa característica, por vezes repetida ao longo do dorso, que lhe confere um aspecto achatado e bem camuflado sobre os recifes de coral.
Como todos os membros coralivoros do género Phestilla, esta espécie é altamente especializada e vulnerável e a sua sobrevivência está intimamente ligada à dos corais de que depende. Uma vez que cada espécie do género se alimenta de uma única espécie ou género de coral, qualquer ameaça ao hospedeiro, como o branqueamento provocado pelas alterações climáticas, pode comprometer directamente a população da lesma-do-mar associada.
O registo de Phestilla viei no sul de África é cientificamente significativo por várias razões. Em primeiro lugar, alarga consideravelmente a distribuição geográfica conhecida da espécie, confirmando a sua presença no Oceano Índico Ocidental e no corredor marinho moçambicano — uma região ainda sub-estudada em termos de biodiversidade de invertebrados. Em segundo lugar, evidencia que o sistema de recifes de Techobanine alberga uma riqueza biológica que transcende as espécies mais visíveis, como peixes ou megafauna, estendendo-se a organismos de pequena dimensão mas de grande relevância ecológica.
Os nudibrânquios são frequentemente utilizados como indicadores da saúde dos ecossistemas marinhos: a sua presença e diversidade reflectem a qualidade e complexidade do habitat. A identificação de 48 espécies neste levantamento, incluindo uma com distribuição anteriormente desconhecida nesta região, reforça o estatuto de Techobanine como um dos sistemas de recifes mais biologicamente ricos do sul de Moçambique e sublinha a urgência de continuar a investir na sua protecção e monitorização.
Foto: The Three P




