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Kambaku

Estudo moçambicano diz que desigualdade salarial trava investigação africana

Apr 28, 2026 |

Um novo estudo de dois investigadores moçambicanos da Universidade Lúrio defende que os baixos salários dos investigadores africanos limitam a produção científica local.

A investigação, conduzida por Harith Farooq e Isildo de N. Nganhane, académicos da Faculdade de Ciências Naturais da UniLúrio, sediada em Pemba, reflete sobre uma possível barreira estrutural que poderá estar a ser ignorada que é o de, apesar de o continente albergar uma riqueza natural incalculável, as nações africanas contribuirem com menos de um por cento da produção científica mundial.

Esta discrepância é agora explicada, em grande parte, pelas assimetrias financeiras. O artigo publicado na revista científica Conservation Biology analisa bases de dados bibliométricas desde o ano dois mil e comparou os rendimentos de profissionais da biologia estabelecidos em cinquenta e quatro nações africanas com os dos seus pares estrangeiros.

Os resultados demonstram, segundo estes investigadores, que a disparidade de vencimentos é um forte indicador da quebra de produtividade nacional. Quando o fosso salarial aumenta, o volume de publicações literárias e científicas lideradas por locais diminui drasticamente, cedendo lugar a trabalhos dominados por afiliações externas.

Segundo o estudo enviado à KAMBAKU, a recolha de dados no terreno para o estudo da biodiversidade é uma actividade intrinsecamente dispendiosa. Exige transporte para zonas remotas, equipamentos de recolha, alimentação e o pagamento de licenças. O documento estipula um valor conservador de mil dólares norte-americanos para uma expedição curta.

Contudo, defendem os investigadores moçambicanos, em metade dos países avaliados, os biólogos locais não conseguiriam cobrir esta despesa nem que investissem a totalidade do seu vencimento mensal. Em contraste, os cientistas de outras regiões globais mantêm rendimentos disponíveis suficientes para financiar as próprias deslocações de alta qualidade, mesmo após subtraídos os custos com voos intercontinentais.

O caso do Malawi é apontado como o extremo desta realidade, onde os académicos de fora chegam a auferir trinta e quatro vezes mais do que os locais. O facto de os investigadores africanos enfrentarem diversas dificuldades para suprir necessidades básicas impede a sua afirmação na vanguarda dos projectos de conservação.

Como referem os autores no estudo, “estas disparidades perpetuam a dependência de instituições estrangeiras, restringem a capacidade de investigação local e limitam a capacidade de África para enfrentar os seus desafios específicos em matéria de conservação.

“Combater a desigualdade salarial é essencial para reforçar a capacidade de investigação local e garantir contribuições mais equitativas para a ciência global da biodiversidade, especialmente tendo em conta o rápido declínio global da biodiversidade”, defendem.

Defendem os investigadores que os governos da África Subsariana alocam, em média, apenas zero vírgula quatro por cento do Produto Interno Bruto para a ciência e que sem uma acção concertada para rever a valorização financeira destes quadros, o talento continuará a ser forçado a procurar fontes alternativas de rendimento ou a abandonar a actividade, mantendo o conhecimento da biodiversidade africana predominantemente dependente de agendas alheias ao continente.

Foto: Anthony Ochieng/Wildlife Conservation Network

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