Abr 14, 2026 |
Uma investigação realizada na Gorongosa concluiu que o ‘guano’, como é conhecido o acumulado de excrementos de morcego sustenta ecossistemas de cavernas e pode apoiar rendimentos rurais.
O estudo está a lançar luz sobre o valor ecológico e económico do guano de morcego, num sistema subterrâneo onde estes excrementos funcionam como base de vida para múltiplos organismos e podem também beneficiar comunidades locais, desde que a recolha seja feita de forma sustentável.
O trabalho é conduzido por Raúl da Silva Armando Chomela, biólogo molecular moçambicano ligado ao laboratório de genética do parque, o E.O.Wilson Lab, e doutorando da Universidade do Porto, em Portugal, que estuda há dois anos os morcegos e o guano nas cavernas do Parque Nacional Gorongosa.
O guano é a acumulação de excrementos de morcegos ou de aves, frequentemente misturados com restos orgânicos (como penas, ossos ou insetos), que ao longo do tempo se decompõem e formam um material rico em nutrientes.
Segundo o The Guardian, o parque e áreas próximas contam com mais de 30 cavernas numa rede subterrânea com cerca de 183 quilómetros quadrados, inserida numa área protegida de 4.000 quilómetros quadrados entre as mais biodiversas de África.
Nessas grutas vivem mais de 100 espécies de morcegos identificadas na Gorongosa, embora ainda não exista uma contagem exacta das que usam estas cavidades. Numa das cavernas mais estudadas, Tombo Aphale 5, estarão mais de 10 mil morcegos, de acordo com Chomela.
“O guano é muito mais do que simples excrementos de morcego”, afirma o investigador no artigo publicado pelo jornal britânico. “Se tivesse de o descrever numa palavra, diria ‘ecossistema'”.
Segundo a investigação, o guano acumulado ao longo do tempo não é apenas resíduo orgânico. Trata-se de uma matéria rica que sustenta escaravelhos, rãs, salamandras e microbiomas adaptados a condições muito específicas de humidade, temperatura e ausência de luz. O próprio equilíbrio ambiental dentro das cavernas depende dessa composição.
O estudo tem também uma dimensão prática para as populações vizinhas. Em comunidades rurais próximas, a recolha de guano é uma das poucas formas regulares de obter rendimento em dinheiro, sendo usado como fertilizante agrícola rico em ազoto, fósforo e potássio para culturas como sorgo, feijão e milho. Chomela estima que os recolectores ganhem, em média, 200 meticais por cada 50 quilos vendidos.
Mas o alerta central da investigação é que a extracção sem controlo pode destruir o próprio recurso. O Bat Conservation International adiantou já que começou a trabalhar com o Parque Nacional da Gorongosa e com operadores locais para definir orientações de extracção sustentável, depois de preocupações levantadas em 2023 sobre o aumento da produção de guano.
“Quando vêem o guano, vêem dinheiro. Mas o guano é o que garante condições ambientais estáveis nas cavernas”, afirma Chomela. “A exploração excessiva comprometerá a composição de uma caverna, tornando-a estéril.”.
A equipa está a usar técnicas de ADN ambiental e metabarcoding para perceber a dieta dos morcegos, a proporção entre sexos e a presença de parasitas e agentes patogénicos. Um dos objectivos é demonstrar, com base científica, que estes animais ajudam a controlar insectos e pragas agrícolas, incluindo mosquitos vectores de malária, reforçando a utilidade da sua conservação junto das comunidades locais.


Fotos: The Guardian/Gorongosa




