Fev 18, 2025 |
Na Reserva Especial do Niassa uma prática ancestral de colaboração entre caçadores de mel e pássaros guias-de-mel tem demonstrado um impacto económico significativo nas comunidades locais.
Esta relação única, em que as aves ajudam os humanos a localizar ninhos de abelha, é crucial para o sustento de muitas famílias da região.
De acordo com um estudo publicado na revista científica Ecosystem Services, cerca de 75% do mel recolhido na reserva é obtido com a ajuda das aves, que se alimentam da cera das abelhas. Esta colaboração permite aos caçadores de mel aumentar a sua produtividade e garantir a sua subsistência, num contexto de pobreza e poucas oportunidades de emprego.
Em termos mais amplos, a actividade de caça ao mel na Reserva Especial do Niassa (REN) gera um valor económico significativo. De acordo com as estimativas feitas pela equipa de investigadores, cerca de 500 caçadores de mel na região contribuem com um total de 40.700 dólares ao ano, valor que reflete a importância dessa prática para a economia local. Além disso, este rendimento tem um papel fundamental na subsistência das famílias, dado o contexto de escassez de recursos e de alternativas de emprego na região.
A Reserva Especial do Niassa é a maior área protegida do país, abrangendo mais de 42.000 km² e sendo casa de 67.000 pessoas de diferentes etnias, como os Yao, Matambwe e Macua. A região é caracterizada por florestas de miombo, inselbergs graníticos e rios sazonais, com a população local dependendo fortemente da agricultura, pesca e, especialmente, da caça ao mel selvagem para a sua subsistência. Cerca de 91% das famílias da REN estão envolvidas na recolha e venda de produtos florestais não-madeireiros, com o mel selvagem a ser uma importante fonte de rendimento e alimentação.
Uma característica única da caça ao mel em REN é a colaboração entre os caçadores de mel e os guias-de-mel, aves que orientam os humanos para os ninhos de abelha. Este comportamento mutualista, em que os humanos recebem ajuda das aves para encontrar mel e as aves se alimentam da cera das abelhas, é uma prática cultural que, embora esteja em declínio, continua a ser uma fonte vital de rendimento e segurança alimentar para as comunidades locais. De acordo com o estudo, três quartos do mel recolhido na região é encontrado com a ajuda desses pássaros, sublinhando o valor desta parceria para os caçadores.
A prática de caça ao mel com a ajuda dos guias-de-mel está intimamente ligada à saúde das florestas de miombo, que fornecem o habitat necessário para as abelhas e, consequentemente, para a continuidade dessa tradição. A preservação desses ecossistemas é essencial não apenas para garantir os benefícios económicos e alimentares, mas também para proteger um património cultural único. Assim, a conservação da REN e a manutenção do acesso das comunidades a esses habitats são cruciais para a sustentabilidade da cooperação entre seres humanos e vida selvagem, que continua a ser um exemplo valioso de coexistência natural.
Este estudo sublinha, portanto, a importância de iniciativas de conservação que garantam a protecção da Reserva Especial do Niassa e o acesso das comunidades locais aos seus recursos naturais. O valor económico e cultural desta parceria com os guias-de-mel é uma prova de que a conservação da natureza pode ser uma fonte de benefícios materiais, ao mesmo tempo que preserva tradições culturais valiosas.
A pesquisa destaca a importância da protecção dos ecossistemas de miombo, cujas florestas são essenciais não só para a continuidade desta tradição cultural, mas também para a economia local. A conservação desses habitats naturais não é apenas fundamental para os benefícios materiais que a caça ao mel proporciona, mas também para preservar uma prática cultural que tem sido transmitida ao longo das gerações.
Este estudo evidencia como as interacções humanas com a vida selvagem podem gerar benefícios económicos substanciais, ao mesmo tempo que reforçam a importância da conservação da biodiversidade para as comunidades rurais. A preservação da Reserva Especial do Niassa é, assim, vista como vital não só para o sustento económico das famílias, mas também para o legado cultural que perdura há séculos.
O estudo foi liderado pelos investigadores Jessica van der Wal, David J. Lloyd-Jones, Claire N. Spottiswoode, do FitzPatrick Institute of African Ornithology (Cidade do Cabo) e por Celestino Dauda, Horácio Murico, Colleen M. Begg, Keith S. Begg e Agostinho A. Jorge, do Niassa Carnivore Project (Lichinga).



Foto: Mongabay
Infografias: Ecosystem Services




