Abr 1, 2025 |
Décadas após a guerra civil em Moçambique, a vida selvagem do Delta do Zambeze mostra sinais de recuperação. No entanto, um estudo recente revelou que as hienas-malhadas continuam a enfrentar uma densidade populacional alarmantemente baixa.
A investigação, liderada por Willem Briers-Louw, cientista da Zambeze Delta Conservation and Anti-Poaching, aponta a caça furtiva como a principal ameaça e defende medidas urgentes para evitar um declínio irreversível da espécie neste econssitema.
O estudo publicado na revista Oryx, focou-se na população de hienas-malhadas na região central de Moçambique, após anos de guerra, com o objectivo de estabelecer uma linha de base para a densidade populacional da espécie e compreender o seu estatuto no pós-guerra. A pesquisa revelou ameaças significativas, mas também indicou um potencial de recuperação caso sejam aplicadas medidas de gestão eficazes.
Moçambique foi palco de intensos conflitos entre 1964 e 1975 e novamente entre 1977 e 1992, com especial impacto na região central do país. Durante este período, as populações de animais selvagens foram severamente reduzidas em várias áreas protegidas, como o Parque Nacional da Gorongosa e o Delta do Zambeze. O Delta, uma área classificada como Sítio Ramsar de Importância Internacional, ficou praticamente sem fiscalização durante a guerra. Populações locais deslocadas refugiaram-se nestas zonas e, devido à falta de emprego e insegurança alimentar, recorreram à caça para sobreviver, levando a um aumento desenfreado da caça furtiva.
Por volta de 1992, muitas espécies de grandes mamíferos viram as suas populações reduzidas em cerca de 95%. O búfalo-africano, por exemplo, caiu de 45.000 para apenas 2.000 indivíduos, enquanto a população de palancas caiu de 45.000 para menos de 1.000.
O fim da guerra marcou o início de um impressionante processo de restauro ecológico. Operadores de safáris e turistas regressaram ao Delta, e as receitas geradas permitiram o financiamento de unidades locais de combate à caça furtiva. Com protecção reforçada e devido à elevada produtividade natural do ecossistema do Delta, as populações de fauna selvagem começaram a recuperar. Actualmente, após três décadas de conservação, o Delta apresenta uma restauração ecológica exemplar, com populações de ungulados como o búfalo-africano e a palanca a atingirem cerca de 70% e 90% dos seus níveis pré-guerra, respectivamente.
Apesar da recuperação notável da fauna, a população de hienas-malhadas permaneceu baixa. Para investigar o motivo, investigadores realizaram um estudo com recurso a 76 estações de armadilhagem fotográfica no Delta do Zambeze durante a época seca de 2021. A análise das imagens permitiu identificar apenas 23 indivíduos, resultando numa das densidades populacionais mais baixas registadas para a espécie em toda a sua distribuição geográfica.
Para compreender esta baixa densidade, os cientistas investigaram três factores: Disponibilidade de presas – Os dados revelaram que a quantidade de presas era suficiente para suportar uma população de hienas quase dez vezes superior; Impacto da Caça Troféu – Embora tenha sido registada alguma mortalidade de hienas devido à caça regulamentada, os níveis de extracção eram baixos e ajudavam a financiar os esforços de conservação; Caça furtiva com armadilhas – Este revelou-se o factor mais crítico. Dois dos 23 indivíduos identificados apresentavam ferimentos visíveis provocados por laços, e estima-se que entre 4% e 25% da população possa sucumbir anualmente a este tipo de armadilha ilegal.
A luta contra a caça furtiva e a preservação da biodiversidade no Delta do Zambeze não depende apenas da fiscalização e das acções governamentais. Um novo caminho para a recuperação das hienas-malhadas pode estar na integração das comunidades locais como guardiãs da vida selvagem.
Entre as estratégias sugeridas para garantir a preservação da espécie, destacam-se três medidas que envolvem directamente as populações locais: Emprego na Conservação, com a criação de programas de emprego para os residentes das áreas circundantes do Delta que pode reduzir a dependência da caça furtiva como fonte de rendimento; Educação e Sensibilização, com formação ambiental das comunidades locais que pode ser um dos factores determinantes para a preservação das hienas-malhadas; e Projectos de Desenvolvimento Comunitário, criando alternativas económicas, como a criação de cooperativas agrícolas, pesca sustentável e apicultura que podem reduzir a pressão sobre os recursos naturais e oferecer novas fontes de subsistência às comunidades locais.
A longo prazo, a conservação eficaz da biodiversidade no Delta do Zambeze não poderá depender apenas de acções externas de acordo com as conclusões deste estudo. O futuro das hienas-malhadas e de outras espécies ameaçadas poderá estar nas mãos das próprias comunidades que partilham o território com a vida selvagem.

Foto: goodfon.com e Tiero/Adobe Stock/Oryx




