Jan 20, 2025 |
Uma investigação científica com base em captação de imagens na Gorongosa mostra que pequenos carnívoros coexistem sem clara divisão de espaço ou tempo, desafiando pressupostos ecológicos tradicionais.
O estudo, conduzido pelas investigadoras Katie Grabowski, actualmente da Universidade de Oxford, Erin Phillips, da Universidade de Princeton, e Kaitlyn Gaynor, da Universidade da Colúmbia Britânica, procurou compreender de que forma estas espécies interagem e partilham o ecossistema.
Para o efeito, a equipa instalou uma rede de 60 câmaras automáticas activadas por movimento numa área florestal situada a sul do Lago Urema. A Gorongosa alberga uma assinalável diversidade de pequenos e médios carnívoros, conhecidos como mesocarnívoros, entre os quais se incluem a geneta-malhada, a civeta-africana, o serval, o texugo-do-mel e várias espécies de mangustos, como o mangusto-dos-pântanos.
De acordo com o Parque Nacional da Gorongosa, apesar de os mesocarnívoros desempenharem um papel essencial no equilíbrio dos ecossistemas, pouco se sabe sobre os mecanismos que permitem a sua coexistência. Em teoria, essa convivência é facilitada pela chamada partilha espacial e temporal, ou seja, pela ocupação de diferentes espaços ou horários de actividade, reduzindo a competição directa por recursos como alimento, abrigo ou parceiros.
A alimentação destes animais é composta maioritariamente por carne, representando entre 50 e 70 por cento da dieta, sendo o restante constituído por insectos, fungos, frutos e outro material vegetal. Em muitos ecossistemas, uma espécie pode, por exemplo, concentrar-se no sub-bosque, enquanto outra ocupa zonas mais elevadas, ou ainda apresentar actividade predominantemente diurna em contraste com outra de hábitos nocturnos.
Contudo, os resultados obtidos na Gorongosa surpreenderam os investigadores. A análise das imagens recolhidas revelou pouca ou nenhuma evidência de uma separação clara no uso do espaço ou do tempo entre as espécies estudadas. Em vez disso, os cientistas concluíram que diferenças alimentares e a abundância de recursos disponíveis na área poderão ser suficientes para limitar a competição.
Estas conclusões contribuem para uma compreensão mais aprofundada da ecologia africana e reforçam a importância da Gorongosa como laboratório natural para estudos de conservação e restauração ecológica. O trabalho sugere que ecossistemas ricos e bem geridos podem permitir a convivência de múltiplas espécies, mesmo na ausência de estratégias clássicas de partilha espacial ou temporal.
Foto: Gorogosa




