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Kambaku

Estudo revela que comércio de vestuário em segunda mão gera 200 mil empregos em Moçambique

Abr 8, 2025 |

Um novo estudo publicado pela Consulting For Africa e Abalon Capital Limitada, sob encomenda da organização moçambicana ADPP, traça um retrato sobre a importância do comércio de roupas em segunda mão para a vida quotidiana e a economia de Moçambique.

Muito mais do que uma questão de moda ou reciclagem, este sector revela-se um verdadeiro pilar de subsistência, inclusão social e arrecadação fiscal num dos países mais pobres do mundo, segundo estas instituições.

De acordo com o relatório “Estado Actual do Mercado de Roupas Usadas em Moçambique: Oportunidades e Desafios”, o sector garante emprego a mais de 200 mil pessoas – formais e informais – assegurando o sustento de mais de um milhão de moçambicanos. Para os vendedores mais consolidados, os rendimentos mensais rondam os 650 dólares, um número muito acima do salário mínimo nacional, que se situa em cerca de 90 dólares mensais.

Além disso, o sector responde às necessidades básicas de vestuário de pelo menos 85% da população e contribui com cerca de 35 milhões de dólares anuais em impostos para o Orçamento do Estado – recursos valiosos que sustentam serviços essenciais como a educação e a saúde pública.

Moçambique ocupa a 183.ª posição entre 191 países no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Com um desemprego estimado em cerca de 25% da população activa, o comércio de roupas usadas representa um refúgio económico essencial – sobretudo para mulheres e jovens – num contexto de pobreza generalizada e oportunidades escassas.

Segundo Luísa Diogo, ex-primeira-ministra de Moçambique e membro do conselho de administração do Absa Bank Group, durante o lançamento do relatório, garantiu que “este sector não é apenas sobre roupa — é uma fonte de dignidade e oportunidade, sustentando famílias, criando empregos e contribuindo com receitas fiscais significativas para serviços essenciais como a educação e os cuidados de saúde”.

O relatório surge num momento em que cresce, a nível global, o debate sobre o impacto ambiental da indústria têxtil e a necessidade de transição para modelos mais sustentáveis. No entanto, os autores do estudo alertam: qualquer medida que limite o comércio internacional de roupas usadas deve ter em conta as realidades económicas do Sul Global.

O documento também rebate a ideia de que Moçambique serve como “depósito” de resíduos têxteis do Norte Global. Na verdade, práticas culturais profundamente enraizadas de reutilização, partilha intergeracional de peças e adaptação criativa por alfaiates locais demonstram que o vestuário em segunda mão é valorizado e revalorizado pela sociedade moçambicana.

Com países europeus e africanos a ponderarem restrições à importação de roupas usadas, o relatório adverte para possíveis efeitos colaterais. A limitação desse comércio poderá, inadvertidamente, abrir mais espaço a exportações de vestuário barato e de fraca qualidade provenientes de países como a China – alimentando a cultura descartável da fast fashion.

A recomendação do estudo é que a construção de uma economia verde em África deve passar pela valorização e regulação inteligente do mercado de segunda mão, em vez de políticas restritivas que negligenciam os contextos locais e colocam milhões em risco.

Foto: ADPP

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