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Kambaku

Fogos em florestas de miombo podem colocar recuperação do Gilé em risco

Fev 3, 2026 |

Os incêndios recorrentes e quase anuais no Parque Nacional do Gilé estão a comprometer a regeneração do Miombo e a biodiversidade deste ecossistema localizado na Província da Zambézia.

Um novo estudo científico alerta que esta área protegida está sujeita a um regime de incêndios frequente, colocando em risco a sua integridade ecológica. A investigação analisou 23 anos de dados de satélite, entre 2001 e 2023, e concluiu que cerca de 99% do parque ardeu pelo menos uma vez nesse período.

O estudo foi realizado por J.C.Domingos, F.Montfort, S.N.Lisboa, V.Buramuge, A.Senkoro, I.S.Maquia, A.I.Ribeiro-Barros e N.S.Ribeiro, no âmbito de uma colaboração entre investigadores moçambicanos e internacionais ligados à investigação em ecologia do fogo e gestão de ecossistemas. O trabalho foi divulgado como pré-publicação científica na plataforma internacional Preprints.org, de acesso aberto, não tendo ainda sido submetido a processo formal de revisão por pares.

Em média, o fogo regressa ao mesmo local a cada 3,9 anos, mas a realidade é mais preocupante: em 88% da área protegida, os incêndios ocorrem todos os anos ou de dois em dois anos.

Segundo os autores do estudo, este intervalo é demasiado curto para garantir a recuperação natural do ecossistema Miombo, um tipo de floresta dominante em Moçambique e fundamental para a biodiversidade, o armazenamento de carbono e os meios de subsistência das comunidades rurais.

Os incêndios concentram-se sobretudo entre Agosto e Outubro, no final da estação seca, quando a vegetação está mais inflamável. Cerca de 60% do parque arde anualmente, com maior incidência nas zonas centrais e orientais, incluindo áreas de protecção total.

A análise revela ainda que quase toda a área ardida apresenta severidade média ou média-alta, um padrão que pode afectar a regeneração das árvores e favorecer a expansão de vegetação herbácea em detrimento do coberto florestal. Embora os incêndios de severidade extrema sejam raros, a repetição frequente do fogo representa uma ameaça estrutural ao ecossistema.

Contrariando expectativas, o estudo mostra que o risco de incêndio é mais elevado no interior do parque do que nas zonas tampão habitadas. Entre os principais factores identificados estão variáveis climáticas, como precipitação e radiação solar, mas também actividades humanas, nomeadamente a caça, associada à instalação de armadilhas, e a distância a vias de acesso e campos agrícolas.

Os investigadores destacam que a proximidade de acampamentos de fiscais coincide com áreas de elevada frequência e intensidade de incêndios, sugerindo a necessidade de reforçar práticas de gestão do fogo dentro da área protegida.

Foto: Carla Geyser Africa Geographic

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