Mai 5, 2026 |
A plataforma de ciência cidadã iNaturalist recolheu, entre 2007 e 2025, cerca de 32% da diversidade de tubarões e raias, mas um estudo moçambicano alerta para lacunas na conservação.
A investigação analisou 408 registos submetidos na plataforma iNaturalist, permitindo identificar 44 espécies com validação ao nível específico, num universo de 53 registadas. Este conjunto de dados já representa cerca de um terço da diversidade conhecida de tubarões e raias (elasmobrânquios) no país, evidenciando o potencial da ciência cidadã para complementar esforços científicos tradicionais.
O estudo, publicado na revista científica Frontiers conclui que plataformas de ciência cidadã estão a transformar o conhecimento sobre a biodiversidade marinha moçambicana, mas também evidenciam falhas significativas na conservação de tubarões e raias (elasmobrânquios) ao longo da costa do país.
O estudo é assinado por Dércio Maoze, da Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Lúrio, em Pemba, e do BCSS Ocean Observatory e Kisawa Sanctuary, na ilha de Benguerra, por Jule Buschmann, do All Out Africa Marine Research Centre, na Praia do Tofo, Acácio Chechene, da Wildlife Conservation Society em Moçambique, David van Beuningen, do programa de conservação de tubarões e raias do Oeste do Índico da Wildlife Conservation Society, na Cidade do Cabo, e por Mario Lebrato, também ligado ao BCSS Ocean Observatory e ao Kisawa Sanctuary.
Os resultados mostram uma tendência clara de aumento de observações, sobretudo a partir de 2019, reflectindo maior adesão pública, expansão do turismo marinho e melhor acesso a tecnologias digitais. As raias dominaram os registos, representando 65% das observações, enquanto os tubarões corresponderam a 35%.
Do ponto de vista da conservação, contudo, o cenário é preocupante segundo os investigadores. Cerca de 71% das espécies observadas encontram-se ameaçadas segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, com destaque para categorias de elevado risco. Ainda assim, mais de metade dos registos dizem respeito a espécies sem protecção legal ao abrigo do regulamento nacional de pescas, evidenciando um desfasamento entre o conhecimento científico actualizado e a legislação em vigor.
A análise espacial revela igualmente fortes desigualdades geográficas. A maioria das observações concentra-se no sul do país, sobretudo nas províncias de Inhambane e Maputo, que juntas somam quase 90% dos registos. Em contraste, as regiões centro e norte permanecem sub-representadas, não necessariamente por ausência de espécies, mas por menor esforço de amostragem, acesso limitado e menor presença de infraestruturas de investigação e turismo.
O estudo identifica ainda uma sobreposição significativa entre áreas com maior número de observações e zonas classificadas como Áreas Importantes para Tubarões e Raias, que concentram mais de 90% dos registos. No entanto, apenas 17% das observações ocorrem dentro de Áreas Marinhas Protegidas, o que aponta para uma desconexão entre zonas prioritárias para conservação e áreas efectivamente protegidas por lei.
Apesar de algumas limitações, como enviesamentos espaciais e erros pontuais de identificação, a maioria dos dados analisados apresentou elevada fiabilidade, com 82% dos registos classificados como “grau de investigação”. Os autores defendem que estas plataformas representam uma ferramenta complementar, acessível e de baixo custo, com potencial para apoiar decisões de gestão, actualizar políticas públicas e reforçar estratégias de conservação.
O trabalho sublinha a necessidade de reforçar a recolha de dados nas regiões menos estudadas, promover formação em identificação de espécies e rever periodicamente a legislação nacional, de forma a alinhar a protecção legal com o estado real de ameaça das espécies marinhas em Moçambique.
A utilização de plataformas digitais por cidadãos e investigadores está, assim, a impulsionar o conhecimento sobre a biodiversidade marinha, de acordo com um estudo recente que demonstra o papel crescente destes contributos na monitorização ao longo da costa.
Os dados mostram uma evolução consistente ao longo do tempo, com um aumento expressivo de observações a partir de 2019. Esta tendência acompanha o crescimento do turismo marinho, maior acesso a smartphones e uma participação mais activa do público na documentação da biodiversidade.
Foto: angsana.com




