Kambaku

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José Maria Langa & Isildo Nhantumbo

Madala Vaku Niassa

Uma obra capaz de voltar a ligar a arte à protecção do ambiente, pois ter na Cidade de Maputo o Madala, ouvir os sons da floresta, pássaros, ouvir o ar, que bate nas folhas e ramos de árvores, nos convida a sair e encontrar nesse outro lugar, outros Madalas ou outros animais que lá vivem. Este sair não somente nos leva a apreciar, mas também a proteger a fauna e a flora desses lugares.

Os elefantes são mamíferos sobejamente conhecidos pelo seu grande porte, fazem parte dos Big Five ou os Cinco Grandes mamíferos (leão, leopardo, búfalo-africano, rinoceronte e elefante-africano). Estes cinco representam a fauna africana, mas hoje vamos falar somente do MADALA VAKU NIASSA, uma representação em tamanho real de um elefante, feito com base em ferro, aço e croché, soldado e tricotado por mulheres e homens da Reserva Especial do Niassa – REN.   

Suas trombas longas e flexíveis, suas orelhas e o marfim nesta escultura representam para estas mulheres e homens a resiliência e o sinal de que juntos podemos fazer muito mais, e somente juntos é que foi possível parar com caça furtiva de elefantes na Reserva Especial do Niassa.

Os elefantes pertencem à família Elephantidae e são divididos em três espécies principais: elefante africano de savana (Loxodonta africana), elefante africano da floresta (Loxodonta cyclotis) e elefante asiático (Elephas maximus). O elefante africano de savana é o maior animal terrestre do planeta, podendo pesar cerca de 7 toneladas.

Além de chamarem a atenção pelo grande tamanho, esses animais apresentam algumas características peculiares, como a vida em comunidade. Viver em grupos é sem dúvida o que levou a comunidade a lutar contra todas as formas de caça furtiva destes e outros animais na Reserva Especial do Niassa. Afinal, esta característica do viver junto é muito conhecida entre nós os seres humanos.

Os elefantes vivem em estruturas sociais complexas, constituídas por sociedades matriarcais, isto é, seus grupos são liderados pelas fêmeas. Quase sempre, o grupo de elefantes é formado por fêmeas e seus filhotes, e a matriarca é a fêmea maior e mais velha. Quando os filhotes machos já são capazes de viver sozinhos, eles saem do grupo e podem continuar sua vida de maneira solitária ou podem juntar-se a grupos menores formados apenas por machos. Por isso, são encontrados machos solitários.  

Os machos solitários têm sido quase sempre elefantes adultos, com histórias e saberes animalísticos, que os tornam referências no seio animal, estes são também chamados de Kambakus. No meio a tanta solidão destes grandes elegantes, existem várias experiências de lutas contra predadores e até caçadores.

Afinal, quem pensou no Madala, e como ele chega a Maputo?  Senta que lá vem a história. 

A história de Madala começou quando Paula Ferro, bióloga, e Derek Littleton, pintor e escultor, ambos profundamente envolvidos e preocupados com proteção da Reserva Especial do Niassa, decidiram pôr os seus talentos artísticos ao serviço de um projecto tão ambicioso quanto significativo: a construção de uma obra de arte monumental.  

Madala Vaku Niassa, uma obra de arte para mostrar que somente unidos é possível vencer na luta contra a caça furtiva e para sensibilizar homens e mulheres sobre a importância da proteção dos ecossistemas e dos animais selvagens.

Uma obra de arte capaz de mobilizar os homens e as mulheres da reserva e de permitir-lhes adquirir novas competências e oportunidades alternativas de rendimento, afinal, parte destas mulheres e homens são hoje profissionais de soldadura e croché, e com esse saber têm ganhado a vida e sustentado suas famílias.

Uma obra capaz de voltar a ligar a arte à protecção do ambiente, pois ter na Cidade de Maputo o Madala, ouvir os sons da floresta, pássaros, ouvir o ar, que bate nas folhas e ramos de árvores, nos convida a sair e encontrar nesse outro lugar, outros Madalas ou outros animais que lá vivem. Este sair não somente nos leva a apreciar, mas também a proteger a fauna e a flora desses lugares.

Em 2023, Paula Ferro e Derek Littleton em parceria com o escultor francês Jules Pennel e com a ajuda de mais de 50 membros das comunidades locais, deram suas vidas, seus conhecimentos, seus talentos, tempo e dedicação para gerar artesanalmente a vida ao Madala.

Um elefante soldado e tricotado, com materiais que foram achados e desmontados de armadilhas da caça furtiva, ferro, aço, cordas, armas, picaretas e munições retirados do seu projecto mortal, e Madala, ganha vida feito exactamente de instrumentos e ideias que antes serviram ou teriam servido para a sua vida tirar.

Olhar, para Madala é ver no silêncio das madrugadas, no raiar do sol de várias manhãs, no cair do sol de várias tardes e reflexo que só a lua nos faz sentir de noite, que vários outros animais não escaparam a estas armadilhas. É ver e sentir que precisamos lutar muito mais para que este calar da caça furtiva seja vivido noutros parques e ou ecossistemas. Não queremos fazer mais Madalas com armadilhas, o que queremos é não encontrar mais armadilhas como estas reutilizadas.

Madala é um elefante coberto por uma pele multicolorida, tricotada com lã, para contar a história da resiliência das mulheres que o fabricaram e da diversidade de um mundo natural luxuriante.

Madala é um elefante nascido do trabalho de homens e mulheres para mudar o imaginário popular e reconciliar o homem e a vida selvagem.

Os elefantes desempenham papéis fundamentais nos ecossistemas onde vivem, incluindo a dispersão de sementes, a criação de clareiras na vegetação, e influenciando a estrutura da paisagem. Estes mamíferos têm um significado cultural profundo em muitas sociedades ao redor do mundo, sendo frequentemente considerados símbolos de sabedoria, força e longevidade, e têm um papel importante em mitologias e tradições locais.

Daí a iniciativa da obra de arte monumental na Reserva Especial do Niassa, o velho sábio do Niassa, ou seja, Madala Vaku Niassa, dos idiomas xichangana (Madala) e kiswahili (Vaku).

A história do velho sábio do Niassa representa os 25 anos de trabalho de conservação na Reserva do Niassa, que desde 2020, passou a ser designada Reserva Especial do Niassa. Ela é inspirada na caça furtiva que afectou a Reserva do Niassa até 2018, altura em que se declarou o fim da caça furtiva.

Com esta exposição é possível ver o encontro do talento artístico da Paula Ferro e Derek Littleton, que decidiram colocar em marcha este projecto ambicioso e de grande valor para a conservação, combinando o croché (Projecto YAO Croché) e a soldadura. Conforme declarações da Paula Ferro e Derek Littleton, Madala Vaku Niassa, um elefante em tamanho real, é o sonho que liga a arte à proteção do ambiente.

É quase impossível olhar, contemplar o Velho Sábio de Niassa e permanecer indiferente. Com as suas imponentes dimensões, esta obra nos leva pelo caminho de reflexão sobre os danos que o ser humano tem causado ao meio ambiente, agindo como se ele próprio fosse alheio à natureza e não fizesse parte do meio ambiente.

Como diz o filósofo brasileiro, Marcello Dantas, “Se a arte não incomodar, ela é decoração. A arte precisa incomodar para que de alguma forma gere um questionamento de onde a gente está indo como sociedade e qual é a direcção que devemos tomar”.

Madala Vaku Niassa é uma verdadeira obra de arte, pois consegue provocar em cada espectador/a, uma reacção emocional ou intelectual. Foi com base nesta reacção que passamos a escrever este texto.  Ele causa algum tipo de desconforto ou reflexão, não pode ser visto apenas como um monumento de decoração, algo bonito de se ver. Ele tem um profundo e significativo impacto, nos leva a reflectirmos sobre a acção do homem no meio ambiente, para além de celebrar a vitória sobre a caça furtiva e outros crimes ambientais, como o abate indiscriminado das florestas, que causam impactos negativos adversos na flora e na fauna.

A história do Madala Vaku Niassa, nos remete à história de outro elefante por nós bem conhecido, o Kambaku, em xichangana, que significa elefante velho e solitário. Os elefantes em África, em particular em Moçambique, corriam o risco de extermínio, sobretudo, na Reserva Especial do Niassa e ficaria na solidão o último elefante, que somente ganharia a companhia do Madala Vaku Niassa, mas, o trabalho abnegado da vasta equipa que zela pela flora e fauna da Reserva Especial de Niassa, homens e mulheres das comunidades locais mudou o rumo da história e hoje podemos celebrar esta vitória, que é da responsabilidade de todos nós, cuidarmos do meio ambiente.

Um agradecimento especial para estas mulheres e estes homens que dedicaram parte do seu tempo para priorizar a construção deste que é o símbolo da luta contra a caça furtiva e resiliência das comunidades.

Dos homens e das mulheres locais envolvidos/as neste projecto, vão de um modo particular os agradecimentos a Norte Ardes e José Matola, Cecília Paulo e Josina Estêvão, Raimundo, Aquida Mpetela e Domindos Mussa, Ester Cossa, Roques Francisco.

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