Jul 22, 2025 |
Moçambique deve rever as suas políticas agrícolas e de conservação ambiental, adoptando estratégias ajustadas às especificidades regionais, alertou a coordenadora do projecto Farsymabi, Máriam Abbas, durante uma conferência em Maputo.
Num contexto em que 70% da população moçambicana vive da agricultura Máriam Abbas defendeu, de acordo com a Agência de Notícias de Moçambique, a necessidade urgente de o país adoptar planos de acção ajustados ao contexto local, de modo a promover simultaneamente o progresso rural e a preservação da biodiversidade.
Segundo a investigadora, o actual quadro nacional de políticas ambientais e de conservação assenta numa abordagem centralizada, descurando as especificidades regionais que caracterizam o território moçambicano.
Para Máriam Abbas, “o nosso quadro nacional de políticas actual, adopta uma abordagem muito nacional, ou seja, nós temos uma estratégia nacional e plano de acção da biodiversidade, mas esta estratégia tem esta abordagem nacional. E nós sabemos que o nosso país é muito diversificado, ele é muito heterogéneo, seja no que se refere ao tipo de vegetação a conservar, seja no que se refere mesmo aos aspectos socioeconómicos”, sublinhou.
Neste sentido, o projecto Farsymabi propõe uma metodologia que privilegia o tratamento diferenciado para cada região, tendo em conta as suas realidades específicas. A proposta assenta numa articulação entre a escala local e nacional, com base em zonas sociologicamente homogéneas.
“O que o projecto traz é esta abordagem que permite ter em consideração o contexto sociológico local, ou seja, a abordagem das regiões sociologicamente homogéneas, para o qual seria possível fazer a ligação entre aquilo que são estratégias locais, a integração da biodiversidade com o contexto nacional”, explicou Abbas.
A especialista defende que as intervenções uniformizadas tendem a falhar, precisamente por ignorarem os contrastes existentes entre diferentes zonas do país. Essa lacuna traduz-se, muitas vezes, em paradoxos visíveis, como o da fome persistente em áreas de elevada produção agrícola.
“Durante a primeira parte da conferência, nós mostramos que, por acaso, as regiões que têm níveis elevados de produtividade agrícola são as regiões com mais fome, porque são áreas que têm elevada densidade populacional e que existe maior pressão sobre os recursos naturais. Então, se nós aplicarmos uma estratégia igual a todo o território, esta estratégia não vai ser bem sucedida, porque o país tem contextos específicos diferentes”, argumentou.
De acordo com a responsável do projecto, a proposta passa por segmentar o território nacional segundo critérios como vegetação dominante, densidade populacional, níveis de ocupação agrícola e taxas de desnutrição crónica. A partir dessa segmentação, será possível delinear políticas públicas mais eficazes e sustentáveis.
“As regiões sociologicamente homogéneas são importantes porque elas têm características semelhantes no que se refere ao tipo de vegetação, no que se refere aos aspectos socioeconómicos, por exemplo, densidade populacional, nível de ocupação agrícola, nível de desnutrição crónica, entre outros aspectos, e para os quais necessitariam de políticas ou estratégias similares (…) neste sentido para podermos, depois, desenhar uma estratégia que responda especificamente a esta região sociologicamente homogénea”, afirmou.
Segundo a AIM, desde o início da sua implementação, o Farsymabi tem vindo a dialogar com o executivo moçambicano, nomeadamente com a Direcção Nacional do Ambiente e Mudanças Climáticas. A expectativa é de que os contributos do projecto venham a ser incorporados na definição de políticas públicas mais ajustadas às especificidades de cada região.
O Farsymabi é coordenado pelo Observatório do Meio Rural (OMR), em parceria com o Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal da Universidade Eduardo Mondlane e a Faculdade de Ciências Agrárias da Unilúrio, contando com o financiamento da Agência Francesa de Desenvolvimento.
As declarações de Máriam Abbas foram proferidas à margem da conferência promovida pelo OMR sob o lema “Uma estratégia de integração da biodiversidade no desenvolvimento agrário e rural sensível ao contexto socioecológico local”, evento que reuniu diversos actores do sector, incluindo o secretário de Estado da Terra e Ambiente.
Foto: s.hdnux.com




