Fev 2, 2026 |
Um grupo de especialistas alerta que a ausência de modelos climáticos desenvolvidos em África compromete previsões e alertas precoces para antecipar situações como a ocorrida em Moçambique.
Segundo especialistas do consórcio World Weather Attribution (WWA), estes instrumentos não captam nuances locais determinantes, nem conseguem atribuir correctamente a influência do aquecimento global na intensidade e probabilidade destes episódios.
Para os investigadores do WWA, todos os modelos actualmente disponíveis foram desenvolvidos fora de África e tendem a ser mais eficazes nas regiões para as quais foram originalmente concebidos. Em climas tropicais, mais complexos e com múltiplos sistemas interligados, estas limitações tornam-se ainda mais evidentes.
O colectivo de cientistas defende a criação urgente de modelos climáticos concebidos em África, sublinhando que os actualmente existentes não conseguem representar com precisão as dinâmicas regionais, limitando a capacidade de previsão e de aviso atempado perante eventos extremos, de acordo com a Down to Earth.
As cheias recentes na África Austral, que afectaram gravemente Moçambique, Eswatini, Zimbabwe e o nordeste da África do Sul, expuseram falhas significativas nos modelos climáticos utilizados internacionalmente.
Uma análise de atribuição climática conduzida pelo WWA sobre as cheias que causaram cerca de 200 mortos e afectaram milhares de pessoas concluiu que é imprescindível desenvolver modelos meteorológicos e climáticos adaptados à realidade africana. O objectivo passa por melhorar as previsões de eventos extremos e compreender de forma mais rigorosa o papel das alterações climáticas induzidas pela actividade humana.
O estudo realça que muitas das comunidades afectadas vivem em condições de pobreza extrema e dependem sobretudo da agricultura. Na bacia inferior do rio Limpopo, por exemplo, as cheias recorrentes têm perpetuado um ciclo de vulnerabilidade social e económica, agravado por insegurança alimentar pré-existente, práticas mineiras históricas e infra-estruturas degradadas.
Os cientistas analisaram um episódio de precipitação intensa com duração de dez dias, ocorrido durante a principal época das chuvas, entre Dezembro e Fevereiro. Concluíram que, num mundo já aquecido cerca de 1,3 °C face ao período pré-industrial, um evento desta magnitude ocorre, em média, uma vez a cada 50 anos. Sem o aquecimento global, seria ainda mais raro. A investigação indica também que as chuvas foram cerca de 40 % mais intensas devido ao aquecimento.
A presença de condições fracas de La Niña no Pacífico Equatorial teve igualmente um papel relevante, aumentando a intensidade das chuvas em cerca de 22 %. Contudo, apesar de estes efeitos serem claros nas observações, os modelos climáticos testados não conseguiram reproduzir nem validar adequadamente estes resultados.
Além disso, factores muito localizados, como a coincidência das cheias em Moçambique com marés altas que impediram o escoamento da água para o oceano, não são devidamente representados.
Estes especialistas defendem que modelos regionais melhorados permitiriam previsões mais fiáveis e sistemas de alerta precoce mais eficazes, sublinhando a necessidade de maior investimento e financiamento governamental para esse desenvolvimento em África.
Foto: sapeople.com




