Out 2, 2025 |
A cientista Jane Goodall, referência mundial na etologia e na conservação da natureza, morreu quarta-feira na Califórnia aos 91 anos. Em 2024, o resgate de um gorila em Moçambique teve como destino o Instituto no Congo.
A notícia foi confirmada pelo Instituto Jane Goodall, fundado pela própria, através de uma mensagem publicada nas redes sociais.
Nascida em Londres em 1934, Goodall tornou-se pioneira no estudo do comportamento dos chimpanzés. Tudo começou em 1960, quando, com apenas 26 anos, entrou pela primeira vez na Tanzânia para observar de perto estes primatas. A sua investigação viria a revelar comportamentos até então desconhecidos e a demonstrar a profunda proximidade entre seres humanos e chimpanzés.
A fundação criada pela cientista recorda a sua forma singular de trabalhar: “Ela adoptou uma abordagem pouco ortodoxa para a sua pesquisa, mergulhando no habitat e na vida deles para experimentar a sua complexa sociedade como uma vizinha, em vez de uma observadora distante”, de acordo com a Agência Lusa.
Foi também uma voz persistente na defesa ambiental. Desde 2002, desempenhava o papel de Mensageira da Paz das Nações Unidas, e até muito depois dos 90 anos continuava a viajar pelo mundo para alertar sobre as alterações climáticas.
Numa entrevista concedida à ABC News em 2020, destacou as semelhanças entre chimpanzés e humanos: “O seu comportamento, os seus gestos, os beijos, os abraços, o dar as mãos e o dar palmadinhas nas costas. O facto de que eles conseguem ser violentos e brutais e ter uma espécie de guerra, mas também terem compaixão e serem altruístas.”
Uma ligação inesperada a Moçambique
Entre as inúmeras histórias ligadas ao trabalho de Goodall, destaca-se uma particularmente comovente e relacionada com Moçambique. Há pouco tempo foi resgatada uma bebé gorila que recebeu o nome de Mozambique (também chamada “ZZ”), encontrada no âmbito do combate ao tráfico ilegal de animais selvagens.
Como assinalou na altura o Instituto Jane Goodall, a operação foi conduzida pela Mozambique Wildlife Alliance (MWA), em coordenação com autoridades governamentais e forças de segurança, que asseguraram a sua retirada em segurança e organizaram os documentos necessários para o transporte da pequena gorila desde Moçambique, passando por Angola, até ao santuário do Instituto Jane Goodall em Tchimpounga, na República do Congo.
A chegada de Mozambique a Tchimpounga contou com a intervenção da Dr.ª Rebeca Atencia, directora do Instituto Jane Goodall no Congo, que trabalhou em conjunto com a MWA e com a veterinária Dr.ª Isabel Almeida. Graças a esta colaboração, a pequena gorila foi estabilizada e preparada para iniciar a nova vida no santuário.
Na fase seguinte, ZZ encontrou uma “mãe humana”: Antoinette, uma cuidadora de longa data de Tchimpounga que regressou da reforma para lhe prestar os cuidados essenciais. O acompanhamento especializado durante o período de quarentena revelou-se um sucesso — a gorila está estável, a alimentar-se bem e a mostrar energia e vivacidade.
Nos próximos dois anos, permanecerá sob vigilância intensiva antes de se integrar num grupo de outros gorilas. Este processo garante que crescerá saudável e forte, num ambiente seguro e adequado.

Um legado para além da ciência
O impacto de Jane Goodall ultrapassou o estudo dos primatas. Foi pioneira no acesso das mulheres à ciência, inspirando novas gerações. O Instituto Jane Goodall destaca que, nas últimas seis décadas, a participação feminina na etologia passou de 7% para 26%.
Desde criança, Goodall alimentava o sonho de viver em África entre animais selvagens. Obras como Doutor Dolittle e Tarzan despertaram-lhe uma paixão que viria a orientar toda a sua vida.
Jane Goodall deixa um legado de ciência, activismo e esperança — marcado pelo amor aos animais, pela defesa do ambiente e por histórias que cruzam continentes, como a da pequena gorila de Moçambique que hoje tem uma nova vida graças ao instituto que fundou.
Foto: Natgeo




