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José Maria Langa & Isildo Nhantumbo

O que sabemos da Conservação e Preservação da Biodiversidade em Moçambique?

Os ecossistemas, quando geridos de forma sustentável, dão origem ao aumento da biodiversidade, ponto central das SBN. Os Homens e Mulheres passam a ser a centralidade para a conservação e preservação dos ecossistemas

Fev 21, 2024

Ouvimos quase sempre falar que devemos proteger a biodiversidade em Moçambique e uma das formas para materializar esse propósito, se dá pela acção do Governo, a partir de meios próprios quando cria, Reservas, Parques e ou Áreas de Protecção Ambiental, parecendo ser estes lugares os únicos que devemos proteger e ou conservar a biodiversidade.

São várias as preocupações com as questões ambientais, nestes últimos tempos. Temos pensado em questões que queremos neste texto partilhar, questões essas que vão desde simples reflexões em relação aos conceitos que usamos no campo do activismo ambiental, bem como questões ligadas ao dia a dia dos camponeses, isto é, pessoas que têm a sua vida e dependência económica alicerçada ao campo (agricultores, pastores, pescadores, caçadores, médicos tradicionais e mais).

Antes de partilhar nossos pensamentos, vejamos como está disposta a biodiversidade em Moçambique. Segundo o Ministério da Terra e Ambiente, Moçambique devido à sua extensão e localização ao longo da costa do Oceano Índico e a jusante de importantes bacias hidrográficas, possui uma diversidade de condições biofísicas que comportam uma biodiversidade terrestre, costeira, marinha e aquática que é ímpar na região da África Austral e no mundo, abrangendo cerca de 14 ecorregiões, as quais, em conjunto, abrigam uma biodiversidade estimada em mais de 6.000 espécies florísticas e de 4.000 espécies faunísticas.

Fonte: sibmoz.gov.mz

Pelos números apresentados na ilustração acima, devemos sim, preocupar-nos em proteger e conservar esses ecossistemas, mas a questão da protecção e ou conservação passa primeiramente por conhecer e saber. Afinal, só podemos proteger o que conhecemos e ou sabemos proteger e conservar.

Muito se tem vindo a fazer pelo Governo, através da Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC) e seus parceiros para restaurar, divulgar e promover os ecossistemas terrestres, em particular das áreas de conservação.

Mas temos pouca informação sobre os ecossistemas húmidos, principalmente os aquáticos, sejam eles marinhos, bem como de águas interiores, este último conhecido também como ecossistema ribeirinho. Esta é a primeira questão que queremos chamar a atenção, como já tínhamos indicado no início deste texto. Temos muita riqueza que se expressa na biodiversidade, mas pouco sabemos sobre os ecossistemas ribeirinhos. Quem cuida destes ecossistemas?  

Sem sombra de dúvidas, são as mulheres camponesas e os homens camponeses que nesses lugares têm suas actividades de sobrevivência, ligadas a estes ecossistemas. 

Estes camponeses, não somente exploram os recursos ali existentes, como também são os que de forma natural cuidam, conservam e preservam os mesmos. Assim o fazem com base em conhecimento tradicional ou vernáculo, muitos destes passados de geração em geração. Estes grupos têm propriedade em falar de espécies em risco de extinção, algum fenómeno que alterou sobre maneira o ecossistema ou ainda sobres as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), bem como as de uso medicial, entre outros assuntos, estes são, uns verdadeiros guardiões do conhecimento e dos ecossistemas ali existentes.

Manter um ecossistema em bom estado não implica necessariamente colocar a interferência directa do Homem, ora vejamos, pode se manter o ecossistema em bom estado sem que a acção do homem interfira, por exemplo, as Soluções de Base Natural (SBN). Estas soluções são provenientes da própria natureza e procuram proteger, restaurar e aumentar a resiliência dos ecossistemas, ao mesmo tempo que desencadeiam benefícios Ambientais –mitigação e adaptação aos efeitos das Alterações Climáticas ou Mudanças Climáticas–, Económicos –oportunidades de negócio e empregabilidade–, e Sociais –saúde e bem-estar dos Homens e Mulheres– (EEA, 2021).  As SBN abrangem os seguintes campos de intervenção: (i) conservar e restaurar os ecossistemas; (ii) proteger e gerir de forma sustentável os ecossistemas; (iii) criar novos ecossistemas que reduzam os impactos das Alterações Climáticas (EEA, 2021).  

Os ecossistemas, quando geridos de forma sustentável, dão origem ao aumento da biodiversidade, ponto central das SBN. Os Homens e Mulheres passam a ser a centralidade para a conservação e preservação dos ecossistemas, por isso, para nós estes, devem ser entendidos como seres ambientalistas, não por estes em algum momento advogarem pela defesa do Meio Ambiente, mas principalmente, por estes precisarem de um ambiente para sobreviverem. Todos nós seres humanos, somos ambientalistas, pois fazemos parte e precisamos de ambiente para sobreviver, é no ambiente que buscamos água, oxigénio e outros recursos que possibilitam a vida. 

Este é o segundo ponto, que queríamos partilhar com os leitores, o entendimento que temos sobre o conceito ambientalista, somos por natureza ambientalistas,  desta forma, somos chamados a ser defensores dessa riqueza que se expressa pela quantidade de espécies de flora e fauna, tanto nos ecossistemas terrestres, marinhos e ribeirinhos.

Neste sentido, defendemos a con(pre)servação = Conservação+Preservação dos recursos naturais, na medida em que nós seres humanos, devemos ser os primeiros beneficiários das potencialidades dos ecossistemas, principalmente quando parte de nós tem uma dependência económica sobre os recursos ali existentes, devendo, mantê-los em bom estado, fazendo o consumo e a reposição, e ao mesmo tempo pondo ao abrigo de algum mal os mesmos recursos naturais.

Para além de tantos recursos não declarados (muitos dos quais fora das áreas de conservação), as comunidades locais (camponeses) tratam os recursos com cuidado, pois, o maneio comunitário quase sempre tende a sustentabilidade, afinal, enquanto guardiões as comunidades, usam de conhecimentos e saberes sobre estas áreas, para sustento económico e familiar,  por  isso, para nós eles são o exemplo da aplicação de mecanismos de con(pre)servação.

Deixar as camponesas e os camponeses no centro da con(pre)servação é criar sustentabilidade, e valorizar os conhecimentos e saberes próprios das comunidades nas áreas de conservação declaradas e “não declaradas”.

Sendo para nós a con(pre)servação a terceira contribuição reflexiva neste texto. 


[1] ObservA – Observatório Ambiental para Mudanças Climáticas

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