Mai 27, 2025 |
Um estudo recentemente publicado na revista científica Aquatic Mammals trouxe à luz novas e surpreendentes descobertas sobre a presença de baleias(ou golfinhos)-cabeça-de-melão (Peponocephala electra) no sudoeste do Oceano Índico.
O estudo, realizado entre 2021 e 2024, que contribui de forma inédita para o conhecimento científico de cetáceos nesta vasta e ainda pouco estudada região marinha, foi realizado por uma equipa internacional de investigadores, liderada por Ekaterina Kalashnikova, investigadora no Bazaruto Center for Scientific Studies, em Moçambique e coordenadora do Programa de Cetáceos da Tanzânia, e com a colaboração de Aylin Akkaya, Davis G. Orio e Patrick Lyne.
A equipa registou cinco encontros distintos com esta espécie nas águas profundas da região de Mtwara, sul da Tanzânia — dados que, embora recolhidos em território tanzaniano, têm implicações muito mais amplas para a compreensão da biodiversidade no Oceano Índico Ocidental.
Estas observações, realizadas no âmbito de uma investigação dedicada às baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), incluem os primeiros registos acústicos da espécie ao largo da costa da África Oriental. As baleias foram avistadas em áreas com profundidades entre 500 e 700 metros, junto ao Parque Marinho da Baía de Mnazi e Estuário do Ruvuma (MBREMP), zona estratégica no contexto da circulação marinha e biodiversidade do sudoeste do Índico.
De acordo com Kalashnikova, “compreender a presença e a utilização do habitat das baleias-de-cabeça-melão na África Oriental é crucial, uma vez que a investigação dedicada aos cetáceos nas águas costeiras continentais tem sido limitada”.
O estudo descreve comportamentos sociais pouco documentados, incluindo associações com golfinhos-de-Fraser (Lagenodelphis hosei) e, pela primeira vez na zona, com golfinhos-de-Risso (Grampus griseus), além de interacções ocasionais com baleias-jubarte. Estas interacções sugerem possíveis padrões de co-ocorrência que carecem de investigação mais aprofundada.
Os dados acústicos recolhidos revelaram uma diversidade de vocalizações, incluindo estalidos de ecolocalização, assobios e sons pulsados — sinais que se assemelham aos de populações do Pacífico e das Caraíbas, sugerindo ligações ou adaptações ecológicas comuns a ambientes pelágicos tropicais.
Segundo a co-autora Aylin Akkaya, “as nossas descobertas contribuem para o conhecimento de base que pode informar as estratégias de conservação numa região cada vez mais afectada pela actividade industrial offshore”.
Patrick Lyne, que liderou a componente acústica do estudo, defende que “a documentação desta espécie na Tanzânia sublinha a importância de efectuar levantamentos sistemáticos de mamíferos marinhos em regiões com escassez de dados”.
Os investigadores concluem que a baleia-cabeça-de-melão poderá ter uma presença mais regular do que se pensava nas águas do Oceano Índico Ocidental, levantando hipóteses sobre a existência de unidades populacionais costeiras — uma descoberta com implicações directas na definição de políticas de conservação marinha à escala regional.


Fotos: news.cgtn.com / E.Kalashnikova / A.Akkaya / P.Lyne




