Fev 3, 2026 |
Um grupo de investigadores demonstraram que caçadores de mel no norte de Moçambique usam línguas como o Yao para comunicar com aves-guia selvagens no Niassa.
O estudo internacional liderado pela Universidade da Cidade do Cabo revela que comunidades humanas do norte de Moçambique desenvolvem formas locais de comunicação com os pássaros-guia-do-mel, num processo semelhante à evolução dos dialectos das línguas humanas.
A investigação, publicada na revista científica People and Nature, analisou a cooperação entre pessoas e o guia-do-mel, uma ave selvagem que conduz os humanos até ninhos de abelhas em troca de cera e larvas. Trata-se de um dos raros exemplos conhecidos de comunicação bidireccional entre humanos e animais não domesticados.
No norte de Moçambique, em particular na Reserva Especial do Niassa, os caçadores de mel utilizam vocalizações específicas para atrair estas aves e coordenar o percurso até aos ninhos. Os investigadores registaram chamadas de 131 caçadores em 13 aldeias diferentes, maioritariamente pertencentes ao povo Yao, cuja subsistência depende fortemente do mel silvestre, segundo a Phys.
As chamadas incluem assobios, trinados, grunhidos e sons guturais, usados tanto para chamar as aves à distância como para manter a cooperação durante o trajecto. O estudo revelou que quanto maior a distância entre comunidades, mais distintas se tornam as vocalizações utilizadas.
Segundo os autores, estas diferenças não se explicam por factores ambientais, como a acústica do habitat. Pelo contrário, tudo indica que a variação resulta de processos culturais humanos. Esta conclusão é reforçada pelo facto de caçadores que mudam de aldeia adoptarem rapidamente as chamadas locais da nova comunidade.
Os investigadores defendem que este padrão reproduz, à escala regional, o modo como surgem os dialectos nas línguas humanas. Além disso, há indícios de que as próprias aves aprendem a reconhecer e responder às vocalizações específicas de cada zona, ajustando-se às populações humanas com quem interagem.
Foto: David Lloyd – Jones e Dominic Cram




