Out 28, 2025 |
Cientistas descobriram como embriões de um pequeno peixe africano que apenas existe em Moçambique e Zimabwe conseguem entrar num estado de animação suspensa que lhes permite sobreviver mais de oito meses de seca.
Os embriões do peixe Nothobranchius furzeri, conhecido como killifish-turquesa africano, possuem uma impressionante capacidade de sobrevivência. Habitante de pequenas lagoas temporárias no Zimbabué e em Moçambique, esta espécie enfrenta a seca anual através de um processo extraordinário: entra num estado de “animação suspensa” — ou diapausa — que pode prolongar-se por oito meses, e até dois anos em laboratório.
Um estudo publicado na revista Cell revela os mecanismos genéticos que permitiram ao killifish evoluir esta forma extrema de resistência. Apesar de o fenómeno ter surgido há menos de 18 milhões de anos, a equipa de investigação descobriu que o peixe reutilizou genes muito mais antigos, com origens que remontam a mais de 473 milhões de anos — anteriores ao aparecimento dos primeiros vertebrados terrestres.
“Todo o programa é como o dia e a noite — há vida no estado normal e vida no estado de diapausa, e a forma como isso aconteceu foi reorganizando ou voltando a ligar a região reguladora de um conjunto completo de genes,” explicou a bióloga molecular Anne Brunet, da Universidade de Stanford, uma das autoras principais do estudo.
O killifish é o vertebrado que mais rapidamente atinge a maturidade, vivendo apenas cerca de seis meses mesmo em cativeiro. Antes de as lagoas secarem, os adultos reproduzem-se e morrem; os embriões permanecem enterrados na lama seca, à espera da chuva seguinte para recomeçar o ciclo de vida.
De acordo com o primeiro autor do estudo, Param Priya Singh, da Universidade da Califórnia, em São Francisco, “está mais ou menos a meio do desenvolvimento, e muitos órgãos já estão formados nesta fase — têm um cérebro em desenvolvimento e um coração que deixa de bater na diapausa e depois começa de novo”.
A equipa analisou a expressão genética do killifish em várias fases do desenvolvimento, identificando mais de seis mil pares de genes duplicados (paralogos) com funções específicas durante a diapausa. A maioria destes genes revelou-se extremamente antiga, indicando que o peixe adaptou um conjunto ancestral de ferramentas genéticas para esta nova finalidade.
Comparações com outras espécies mostraram semelhanças notáveis: tanto o killifish sul-americano Austrofundulus limnaeus — que também entra em diapausa — como o rato doméstico apresentam padrões de expressão genética semelhantes durante estados de suspensão metabólica.
Os investigadores identificaram ainda factores de transcrição cruciais, como REST e FOXO3, que controlam a expressão génica durante a diapausa e estão igualmente ligados à hibernação em mamíferos. A equipa destacou o papel essencial do metabolismo lipídico — com níveis elevados de triglicéridos e ácidos gordos de cadeia longa — que poderá proteger as células durante longos períodos de inactividade.
O estudo oferece uma visão fascinante sobre como a vida pode adaptar-se a condições extremas — e talvez até inspire novas abordagens biomédicas para preservar tecidos, órgãos ou até seres humanos em situações críticas.
Foto: zoopet.com




