Jun 2, 2026 |
Uma iniciativa comunitária na aldeia de Mangalisse, em Vilankulo, está a reduzir o tráfico de cavalos marinhos e a recuperar populações locais de espécies que ainda estão em perigo.
Durante anos, os prados de ervas marinhas ao largo daquela zona costeira de Moçambique foram alvo de recolha intensiva de cavalos marinhos para abastecer o comércio associado à medicina tradicional chinesa.
Pequenos, fáceis de secar e de transportar, estes animais eram comprados a pescadores locais por valores entre 25 e 50 meticais por exemplar, o que levou muitos moradores a chamá-los de “diamantes”.
A pressão sobre a espécie agravou-se rapidamente. Segundo especialistas ouvidos pela Discover Wildlife, são precisos entre 700 e 800 cavalos marinhos secos para perfazer um quilograma, pelo qual os pescadores recebiam cerca de 240 dólares. Num contexto de baixos rendimentos, o incentivo económico alimentou a extracção de milhares de exemplares.
Em Moçambique, foram registadas três espécies de cavalos marinhos nas águas costeiras: o cavalo-marinho-girafa, o comum e o espinhoso. Embora estejam legalmente protegidos, a fiscalização continua a ser difícil em zonas remotas do litoral, facilitando o tráfico transfronteiriço.
Foi neste cenário que surgiu a ParCo, abreviatura de Parceiros Comunitários, organização fundada em 2018 por Ilídio Cole, pescador local e formado pela Escola de Desenvolvimento Rural da Universidade Eduardo Mondlane, e por Juliet Lyon, especialista em desenvolvimento internacional. A organização apostou numa resposta centrada na comunidade, combinando sensibilização, valorização do conhecimento local e alternativas económicas.
“Quando lançámos a campanha, os jovens na reunião diziam-nos: ‘Não vamos parar, os cavalos marinhos são os nossos diamantes, estamos a construir as nossas casas com eles’, recorda Juliet Lyon.”
Pouco depois do arranque da campanha, a polícia interceptou uma remessa de 1.782 cavalos marinhos secos que estava a sair da aldeia de Mangalisse. O caso expôs a dimensão do tráfico e serviu de alerta para a própria comunidade. “A polícia ligou a toda a gente que estava nessa lista e avisou-os”, diz Lyon. “Depois disso, a comunidade voltou a chamar-nos e pediu-nos que explicássemos as nossas ideias outra vez.”
A partir daí, a ParCo concentrou-se em fazer com que os cavalos marinhos vivos passassem a valer mais do que mortos. A principal aposta foi o ecoturismo comunitário. Pescadores que antes os capturavam passaram a conduzir visitantes em dhows tradicionais até aos bancos de ervas marinhas, onde os turistas podem observá-los e fazer snorkelling.
A iniciativa, conhecida como Indigo Seahorse Adventure, é gerida localmente e canaliza grande parte das receitas para a própria comunidade, incluindo um fundo social para apoiar famílias em situações de emergência.
“Eles agora já fizeram mais de 100 passeios”, diz Lyon. “A iniciativa beneficia realmente a comunidade. Até assegura um fundo social para famílias que enfrentam problemas, para funerais, casas que ardem, emergências médicas. Toda a gente apoia o projecto porque toda a gente beneficia dele.”
Segundo os promotores, os efeitos ecológicos já são visíveis. Em áreas onde antes se avistavam apenas dois ou três cavalos marinhos por hora, hoje são observados mais de dez em quase todas as saídas.


Foto: researchgate.net / Madelein_Wolf/Getty Images / ParCo




