Fev 10, 2026 |
A observação recente de uma manta de recife (mobula alfredi) em águas ‘lagunares’ da Ilha de Benguerra está a chamar a atenção de investigadores locais pela sua raridade.
O animal foi registado em vídeo por Querino Huo, Community Officer e Activities Manager do Kisawa Sanctuary, no Arquipélago de Bazaruto, numa zona onde este tipo de raia é pouco habitual.
Apesar de as mantas fazerem parte do conjunto de megafauna marinha mais conhecida e frequente em Moçambique, a manta de recife é normalmente associada a ambientes diferentes como bordas de recifes costeiros, pináculos offshore e “estações de limpeza”, locais onde peixes removem parasitas e tecido morto.
Em regra, a espécie é observada em águas costeiras produtivas e abertas, ou semi-abertas, e não em lagoas rasas e abrigadas, como explica Bazaruto Center for Scientific Studies (BCSS).
Águas lagunares são massas de água pouco profundas formadas em zonas costeiras, geralmente separadas do mar por cordões arenosos, mas com ligação parcial ao oceano, onde se misturam águas doces e salgadas, criando ecossistemas de transição ricos em biodiversidade e altamente sensíveis a alterações ambientais.
As mantas de recife são grandes elasmobrânquios filtradores que se alimentam de plâncton, em particular zooplâncton. A sua presença tende a estar ligada a áreas onde a produtividade é gerada por fenómenos como upwelling, correntes e frentes oceanográficas, que concentram alimento na coluna de água.
Em Moçambique, os encontros mantas de recife são mais frequentes ao longo de linhas de costa expostas, como acontece no sul, por exemplo na província de Inhambane, e também em sistemas recifais do próprio Arquipélago de Bazaruto, onde as oportunidades de alimentação e de limpeza estão relativamente bem documentadas.
É por isso que a entrada de um exemplar numa lagoa protegida levanta hipóteses alternativas: poderá ter ocorrido uma agregação local de presas, um movimento exploratório de curta duração, ou até uma maior flexibilidade comportamental na utilização de habitat do que a literatura tem vindo a destacar.
Ao contrário da manta gigante oceânica (Mobula birostris), a manta de recife é, em geral, mais costeira e mais “ligada ao lugar”, apresentando frequentemente fidelidade a locais específicos de agregação e limpeza.
Estudos com telemetria acústica realizados em Moçambique mostram que indivíduos de M. alfredi podem permanecer durante períodos prolongados em pontos costeiros-chave. As detecções tendem a concentrar-se em determinadas horas do dia e em feições concretas do habitat, sugerindo padrões previsíveis e relativamente localizados, em vez de grandes deslocações pelágicas.
Em contraste, habitats lagunares raramente são referidos em trabalhos publicados, o que torna a observação em Benguerra particularmente relevante para preencher lacunas sobre o uso do espaço por esta espécie.
À primeira vista, a manta de recife e a manta gigante podem parecer semelhantes, mas diferem em tamanho, ecologia e padrões de movimento. A manta de recife atinge geralmente larguras de disco na ordem dos 3 a 5,5 metros e privilegia ambientes costeiros e associados a ilhas.
A manta gigante pode ultrapassar 7 metros de largura e tem um comportamento mais pelágico e migratório, ocupando com maior frequência zonas offshore e de oceano aberto. Ambas filtram plâncton e dependem de sistemas produtivos, mas as estratégias espaciais distintas fazem com que registos costeiros de mantas de recife sejam, muitas vezes, mais informativos do ponto de vista ecológico.
Análises de longo prazo no sul de Moçambique apontam para um declínio severo nas observações de mantas nas últimas duas décadas. No caso das mantas de recife, os registos terão caído cerca de 99% entre 2003 e 2023, sugerindo impactos à escala populacional e não apenas flutuações ambientais de curto prazo.
Foto: Danel Wentzel/BCSS




