Mai 27, 2025 |
Uma iniciativa pioneira de conservação marinha está a transformar a pequena comunidade costeira de Jangamo, Provícia de Inhambane, colocando as pessoas no centro da protecção ambiental.
Fundada por Francesca Trotman em 2015, a organização não-governamental Love The Oceans tem vindo a aliar ciência, educação e igualdade de género para preservar os ecossistemas marinhos e melhorar a vida local.
Tudo começou um pouco mais cedo, mais concretamente em 2013, quando Trotman, então estudante de biologia marinha, ficou preocupada com a quantidade de tubarões mortos nas praias da região, muitas vezes apanhados acidentalmente em redes ou capturados para o comércio de barbatanas. O que começou como uma investigação académica rapidamente se tornou numa missão vital.
Ao longo da última década, Love The Oceans estabeleceu-se como um actor fundamental em Jangamo, promovendo práticas de pesca sustentável, aulas de natação gratuitas e campanhas de literacia oceânica. Mais de 95% dos residentes da região não sabem nadar — uma realidade alarmante para quem vive à beira-mar.
“Uma parte significativa do nosso trabalho centra-se na compreensão do impacto socioeconómico da pesca. Adoptamos uma abordagem holística da conservação”, explica Trotman.
“Para o fazermos eficazmente, temos de estar profundamente integrados na comunidade local. A maioria da nossa equipa é constituída por membros da comunidade local, o que promove uma ligação genuína e pessoal com o oceano e com o trabalho que fazemos.”
De acordo com a Dialogue Earth, uma das mudanças mais marcantes tem sido a transição da pesca com redes de emalhar para métodos mais sustentáveis, como a pesca com caiaque. Até ao momento, 32 caiaques foram distribuídos, acompanhados de formação e equipamento, graças a uma consulta alargada com pescadores e conselhos locais.
A resistência à mudança, sobretudo por parte dos detentores das redes de pesca, tem atrasado o abandono de métodos nocivos. Para contornar este obstáculo, a ONG investiu em sensibilização através de filmes documentais em línguas locais e incentivos económicos, como parcerias com estâncias turísticas interessadas em peixe capturado de forma sustentável.
O jovem Mário Guilamba, filho do chefe pescador da região, é agora o rosto da comunicação da organização, utilizando fotografia e vídeo para documentar e divulgar a importância da conservação marinha.
A recolha de dados científicos — com drones, câmaras subaquáticas e monitorizações de recifes de coral — visa fundamentar a criação de uma Área Marinha Protegida (AMP) na baía de Jangamo. A meta está traçada: entre três a cinco anos para o reconhecimento oficial, com gestão partilhada entre a comunidade e a Love The Oceans.
Outra frente de acção passa pela igualdade de género. Com programas como o de mergulho e o cultivo de mexilhões, a organização procura integrar mais mulheres nas actividades ligadas ao mar, gerando novas fontes de rendimento e autonomia. Duas mergulhadoras formadas já são hoje embaixadoras locais da conservação.
Apesar de limitações financeiras e da ameaça constante da pesca ilegal por embarcações estrangeiras, o projecto prossegue com determinação. A aposta está em consolidar um modelo de conservação liderado pela comunidade, que alie saber local, investigação científica e inclusão social.

Fotos: Dialogue Earth/Love the Oceans




