Jul 27, 2026 |
Uma iniciativa inovadora na África do Sul está a capacitar centenas de realizadores africanos para contarem as suas próprias histórias naturais.
A fundação da organização sem fins lucrativos Nature Environment and Wildlife Conservation Trust (NEWF) resultou de uma constatação inquietante. Em 2015, Pragna Parsotam-Kok e Noel Kok aperceberam-se da forte escassez de profissionais locais no documentarismo de conservação e da dificuldade no acesso às reservas naturais para filmagens. Esta lacunano sector motivou a criação do projecto, cuja primeira conferência arrancou dois anos mais tarde.
O verdadeiro ponto de viragem ocorreu quando o casal procurou especialistas em imagem subaquática para um painel sobre oceanos. A pesquisa revelou um cenário sintomático com a esmagadora maioria dos biólogos marinhos do continente sequer sabia nadar, quanto mais fazer mergulho com escafandro, como conta o The Guardian.
Como resposta, nasceu o primeiro laboratório de mergulho da organização na baía de Sodwana. O que começou com uma dezena de participantes transformou-se numa vasta rede que já abrange perto de 400 bolseiros provenientes de 37 nações africanas e de outras regiões do sul global.
O impacto e a procura por uma voz própria estendem-se também aos sons da savana. Incomodados com a dissociação cultural nas escolhas sonoras das grandes produções internacionais, os responsáveis introduziram oficinas de composição musical em 2021.
De acordo com a mesma fonte, esta aposta na autenticidade deu frutos imediatos. Num feito assinalável, uma banda sonora criada por talentos da NEWF, onde se inclui o músico Koolkat Motyiko, venceu o prémio de melhor composição original no festival Jackson Wild, superando o icónico Hans Zimmer.
A dimensão comunitária da organização encontra o seu reflexo mais profundo na história de Silindile Mbuyazi. Conhecida como Mama Sli, aproximou-se do mergulho para tentar recuperar o corpo do irmão, vítima de afogamento em 2015. Desafiando avisos supersticiosos da sua comunidade sobre uma mítica serpente de sete cabeças oculta nas águas, não encontrou o irmão, mas deparou-se com uma tartaruga-verde que associou à avó que a criara.
Profundamente transformada pela experiência, tornou-se instrutora do projecto e cedeu terrenos familiares para a construção do “eKhaya” (que significa “casa” em zulu). Inaugurado no final de 2023, o complexo é viabilizado por um financiamento do programa Africa Refocused da National Geographic. Hoje, o espaço congrega estúdios de edição, alojamento e uma piscina de treino onde dezenas de estagiários locais dão as primeiras braçadas.
Com perspectivas sólidas para a expansão de infraestruturas e a compra de embarcações, o futuro da cinematografia de conservação africana passa, de forma indelével, por colocar os meios de produção nas mãos de quem melhor conhece o território.

Foto: Dercio Muha Gomate em Sodwana Bay, África do Sul por Jahawi Bertolli/National Geographic no The Guardian




