Mar 10, 2026 |
A deslocação de um tubarão-baleia entre Madagáscar e Seychelles reforça a importância do Canal de Moçambique como corredor ecológico para megafauna marinha.
O tubarão-baleia (Rhincodon typus) é o maior peixe existente no planeta, podendo ultrapassar os 18 metros de comprimento. Apesar da sua dimensão impressionante, permanece entre as espécies de megafauna marinha menos compreendidas pelos cientistas, de acordo com a Oryx.
Estes tubarões alimentam-se por filtração e habitam sobretudo águas tropicais e subtropicais quentes, onde se concentram sazonalmente em resposta a florescimentos de plâncton e outras fontes previsíveis de alimento. Cada indivíduo possui um padrão único de manchas e riscas no corpo, característica que permite aos investigadores identificá-los através de fotografias, funcionando como uma espécie de impressão digital biológica para acompanhar deslocações e tendências populacionais.
Embora geralmente se desloquem lentamente, os tubarões-baleia realizam migrações de grande escala que podem atingir milhares de quilómetros, estabelecendo ligações entre ecossistemas marinhos distantes. A espécie encontra-se classificada como Em Perigo na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), enfrentando ameaças como capturas acidentais na pesca, colisões com embarcações e alterações na produtividade marinha associadas às mudanças climáticas.
A compreensão dos padrões de deslocação e da ecologia espacial destes animais é considerada essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de conservação num oceano cada vez mais sujeito a alterações ambientais.
Nas Seychelles, a Marine Conservation Society Seychelles (MCSS), organização ambiental fundada em 1997, tem o tubarão-baleia como espécie emblemática desde a sua criação. Em 2002, a organização desenvolveu um programa que combinava investigação científica e ecoturismo, recorrendo a operações aéreas e embarcações para localizar estes gigantes marinhos.
O programa permitia que visitantes praticassem snorkelling nas proximidades dos tubarões-baleia sob condições rigorosamente controladas, garantindo que os animais não fossem perturbados. Ao mesmo tempo, os turistas participavam em iniciativas de ciência cidadã, recolhendo fotografias para identificação individual que alimentavam um programa de monitorização de longo prazo.
Esta abordagem permitiu financiar actividades científicas, aumentar a sensibilização pública e contribuir para a decisão de classificar o tubarão-baleia como espécie protegida nas Seychelles em 2003. O programa manteve-se activo até 2014, altura em que a diminuição das observações nas águas de Mahé levou à suspensão das operações. Em 2023, no entanto, um aumento inesperado de avistamentos motivou o relançamento dos esforços de monitorização.
Do outro lado do Canal de Moçambique, o Madagascar Whale Shark Project (MWSP) tem vindo desde 2015 a desenvolver um catálogo de identificação fotográfica destes animais. Trata-se do único projecto dedicado especificamente ao estudo de tubarões-baleia ou de qualquer espécie de elasmobrânquio em Madagáscar.
O projecto opera sobretudo na região de Nosy Be, no noroeste do país, em colaboração com operadores turísticos locais. Para cada tubarão observado são recolhidos dados padronizados, incluindo localização GPS, tamanho estimado, sexo e fotografias de identificação.
O objectivo principal é compreender os padrões de ocorrência, a permanência e a estrutura populacional destes animais nas águas malgaxes. Ao longo de oito temporadas de investigação, o projecto identificou 546 tubarões-baleia, todos machos juvenis.
Contudo, desde a pandemia de Covid-19 o número de observações tem diminuído rapidamente no arquipélago de Nosy Be. Se em 2019 foram registados cerca de 140 indivíduos, em 2025 o número caiu para apenas 38.
Perante a proximidade geográfica entre Seychelles e Madagáscar, investigadores das duas organizações começaram a questionar se estariam a observar os mesmos animais em diferentes regiões. Embora seja conhecido que os tubarões-baleia percorrem grandes distâncias, até recentemente não existia qualquer confirmação científica de ligação entre as duas áreas.
A partilha de fotografias entre as equipas abriu caminho a uma colaboração científica regional que acabaria por produzir um resultado inesperado.
A 3 de Dezembro de 2025, após a comparação das imagens de identificação, investigadores confirmaram pela primeira vez o movimento de um tubarão-baleia identificado entre Madagáscar e as Seychelles. O animal, baptizado de “Mistral”, percorreu uma distância estimada de cerca de 1.200 quilómetros em mar aberto, surgindo ao largo da ilha de Mahé seis anos depois de ter sido inicialmente registado perto de Nosy Be.
A deslocação deste indivíduo fornece uma peça importante para compreender os movimentos dos tubarões-baleia no oceano Índico ocidental e confirma uma hipótese há muito considerada pelos cientistas: estes animais não pertencem apenas às águas de um único país, mas deslocam-se entre diferentes regiões em resposta a condições ecológicas ainda pouco conhecidas.
Os investigadores sublinham que esta descoberta demonstra a importância da monitorização de longo prazo, da ciência cidadã e da cooperação internacional para proteger espécies altamente migratórias como o tubarão-baleia. Num contexto regional, o Canal de Moçambique assume assim um papel estratégico como corredor marinho essencial para a conservação da megafauna oceânica.
Foto: Oryx




