Skip to main content

Kambaku

‘Sagrado’ garante preservação da biodiversidade da Reserva de Moribane em Manica

Mai 12, 2026 |

Um novo estudo realizado na Reserva Florestal de Moribane, em Sussundenga, na Província de Manica, diz que as florestas sagradas desempenham um papel relevante na protecção da biodiversidade.

De acordo com este estudo publicado na revista científica Frontiers, a componente sagrada tem um papel directo na estabilidade da paisagem, apesar do avanço da agricultura e da perda de coberto florestal nas últimas duas décadas. O estudo foi conduzido por Flávio Francisco, da Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, com a participação de Ezequiel Chiziane e António Serra, igualmente ligados à mesma instituição.

A investigação analisou 13 locais sagrados principais e combinou entrevistas a 149 agregados familiares, trabalho de campo e análise de imagens de satélite para perceber de que forma as práticas culturais locais influenciam a conservação da floresta. No terreno, os investigadores instalaram 26 parcelas de amostragem, 18 em florestas sagradas e oito em áreas não sagradas, para comparar a composição e a estrutura das espécies lenhosas.

Os resultados indicam que as florestas sagradas apresentam maior riqueza específica, com 41 espécies identificadas, contra 38 nas áreas não sagradas. No total, foram registadas 75 espécies de plantas lenhosas pertencentes a 31 famílias botânicas. Entre as famílias mais representadas surgem Fabaceae, Apocynaceae e Euphorbiaceae.

O trabalho mostra também que uma parte significativa das espécies com maior importância ecológica é considerada sagrada pelas comunidades. Entre elas estão Newtonia buchananii, Millettia stuhlmannii, Diplorhynchus condylocarpon e Bridelia micrantha, árvores lenhosas nativas da África subsariana, comumente encontradas em florestas e formações de Miombo em países como Moçambique. Segundo o estudo, entre 50% e 60% das dez espécies com maior Índice de Valor de Importância nas duas tipologias florestais têm estatuto sagrado a nível comunitário.

Além do valor ecológico, estas áreas mantêm uma forte dimensão cultural e espiritual. As florestas sagradas são usadas sobretudo para cerimónias ligadas ao pedido de chuva em períodos de seca, à protecção das culturas agrícolas, à promoção de boas colheitas e à prevenção de incêndios. Os rituais requerem, entre outros elementos, sorgo, uma galinha preta e duas capulanas.

Em termos de estado de conservação, 53,84% das florestas sagradas avaliadas encontravam-se em boa condição, 15,38% em condição intermédia e 30,76% em estado fraco. Ainda assim, a pressão sobre estes espaços está a aumentar. A análise por detecção remota identificou uma expansão progressiva das áreas agrícolas e uma redução do coberto florestal, sobretudo nas zonas não sagradas, com um pico de desflorestação em 2020.

A comparação entre 2007 e 2022 mostra que tanto as florestas sagradas como as não sagradas perderam área, mas as segundas sofreram reduções mais acentuadas ao longo de todo o período analisado. Os autores sublinham que esta diferença sugere um efeito protector associado às normas culturais e às restrições tradicionais de uso do território.

O estudo assinala ainda que várias espécies classificadas como quase ameaçadas ou vulneráveis pela Lista Vermelha da UICN ocorrem nestes habitats, reforçando a importância local e regional da sua preservação. Ao mesmo tempo, alerta para a presença crescente da espécie invasora Vernonanthura phosphorica, com origem no Brasil, em fragmentos degradados.

Para os investigadores, as florestas sagradas de Moribane são um património cultural vivo, ligado à identidade comunitária e à relação com os antepassados. O trabalho defende, por isso, o reconhecimento formal destas áreas, a integração dos valores culturais nas estratégias de conservação e o reforço de meios de subsistência sustentáveis para as comunidades locais.

Foto: Afrixalus crotalus, rã-musgosa de Moçambique, fotografada por Bart Wursten/zimbart.

NEWSLETTER DO MUNDO NATURAL

Subscreva a nossa newsletter e receba notícias do mundo natural.