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Kambaku

Tráfico ilegal de aves pouco vigiado inclui Xirico Moçambicano nos mais exportados

Abr 14, 2026 |

Moçambique surge entre os principais exportadores africanos de aves vivas para a Ásia num comércio mundial pouco monitorizado e o Xirico moçambicano está entre as aves mais traficadas.

Embora o tráfico ilegal esteja longe de ser novo, um estudo recente mostra que uma parte significativa deste comércio continua a escapar aos sistemas internacionais de controlo mesmo quando envolve grandes volumes e potenciais impactos sobre a fauna selvagem, os ecossistemas e a saúde humana, de acordo com a The Conservation.

A investigação, publicada na revista científica Conservation Biology, analisou dados aduaneiros das Nações Unidas entre 2006 e 2020 e concluiu que mais de 1,08 milhão de aves vivas foram importadas para Hong Kong e Singapura ao longo desse período, excluindo papagaios, aves de rapina, avestruzes, emas e aves domésticas. Desse total, cerca de 708.861 aves, ou seja, 65,3%, tiveram origem em países africanos.

Entre os principais países exportadores surgem Moçambique, Mali, Guiné e Tanzânia, que, em conjunto, representaram 86,3% das importações africanas registadas para estes dois grandes centros asiáticos de comércio de vida selvagem.

No caso de Hong Kong, os dados indicam que Mali e Moçambique concentraram 74% das aves importadas a partir de países africanos. O estudo assinala ainda que o peso de Moçambique e do Mali se tornou mais visível a partir de 2011, revelando uma alteração nas rotas e nos protagonistas deste mercado ao longo do tempo.

Os autores sublinham que este comércio tem sido amplamente subestimado porque a maior parte das espécies transaccionadas não consta das listas da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, mais conhecida por CITES. Actualmente, mais de 80% das espécies de aves não estão abrangidas por este mecanismo, o que significa que o comércio transfronteiriço de muitas delas não fica registado de forma sistemática nas bases de dados globais sobre vida selvagem.

Essa falha de monitorização torna mais difícil perceber a dimensão real do problema e limita a capacidade de resposta das autoridades responsáveis pela conservação e pela biossegurança. Os investigadores alertam que, sem dados fiáveis sobre volumes, espécies e destinos, os decisores políticos ficam sem instrumentos para avaliar o impacto do comércio sobre populações selvagens, prevenir a disseminação de doenças ou travar o risco de introdução de espécies invasoras.

Embora o debate público se concentre muitas vezes no tráfico ilegal de espécies mais mediáticas, como papagaios, o estudo mostra que boa parte do comércio actual incide sobre pequenas aves canoras, quase sempre ausentes das manchetes. A análise detalhada dos registos de importação de Hong Kong entre 2015 e 2020 indica que o mercado foi dominado por aves do género Crithagra, conhecidas como canários africanos.

Duas espécies destacaram-se de forma muito expressiva: o Xirico ou Canário de Moçambique/Canário-de-Testa-Amarela (Crithagra mozambica ou Serinus mozambicus) e o chamariz-de-uropígio-branco (Crithagra leucopygia), que representaram cerca de 84% das aves importadas de África para Hong Kong nesse período. No conjunto, as seis espécies mais comercializadas pertenciam todas ao género Crithagra e corresponderam a 95,1% das importações africanas analisadas.

Apesar de muitas destas aves estarem classificadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza como de “menor preocupação”, os autores avisam que isso não significa ausência de risco. Em vários casos, existem já indícios de declínio das populações selvagens e suspeitas de que a captura para comércio esteja a contribuir para essa tendência. O estudo refere que, para pelo menos seis espécies importadas para Hong Kong, o comércio pode constituir uma ameaça plausível à sustentabilidade das populações naturais.

Para Moçambique, o estudo deixa um sinal de alerta particular. Os autores reconhecem que o papel do país neste comércio internacional recente ainda é pouco compreendido e defendem mais investigação sobre a escala, a origem e os impactos das exportações moçambicanas. Essa necessidade é tanto mais relevante quanto a maior parte das aves comercializadas terá sido capturada directamente na natureza, e não proveniente de reprodução em cativeiro.

Além das implicações para a biodiversidade, os investigadores chamam a atenção para os riscos sanitários associados ao movimento internacional de aves vivas. O comércio de aves selvagens tem sido associado à transmissão de agentes patogénicos como a gripe aviária, a psitacose e outras doenças com capacidade de afectar animais e seres humanos. Quando grandes quantidades de aves de diferentes espécies são mantidas juntas em condições de stress, aumenta o potencial de propagação de infecções e de criação de focos zoonóticos.

Há ainda riscos ecológicos adicionais quando animais escapam ou são libertados fora da sua área de distribuição natural, podendo estabelecer populações invasoras com efeitos negativos sobre espécies autóctones e ecossistemas frágeis.

Os autores recordam que vários países já adoptaram restrições severas ao comércio de aves selvagens. A Tanzânia, por exemplo, foi durante décadas um dos maiores exportadores mundiais, mas pôs fim às exportações em 2016. Essa decisão coincidiu com uma redução acentuada do volume de comércio registado a partir desse país. Do lado das importações, a União Europeia proibiu em 2005 a entrada de aves selvagens após um surto global de gripe aviária, uma medida que terá poupado milhões de aves à captura.

Perante este cenário, o estudo defende um reforço urgente da monitorização internacional. Entre as medidas propostas estão sistemas aduaneiros mais precisos, capazes de registar o comércio ao nível da espécie, e uma revisão dos códigos internacionais de mercadorias para permitir maior detalhe taxonómico. Os investigadores recomendam também que os países importadores imponham restrições mais amplas a exportações provenientes de Estados que não consigam demonstrar a origem legal das aves ou a existência de sistemas robustos de quarentena e vigilância sanitária.

Nota acerca do Xirico Moçambicano: Serinus mozambicus e Crithagra mozambica referem-se à mesma espécie de ave, vulgarmente conhecida como Xirico ou Canário-de-Moçambique. A diferença é apenas taxonómica: Crithagra é o género atual aceite, enquanto Serinus é uma designação mais antiga, frequentemente usada em avicultura.

Foto: Xirico fotografado em Hong Kong por Sam Inglis/ADM Capital Foundation/The Conversation

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