Mai 13, 2025 |
Um novo estudo científico, divulgado na revista Ecology, revela uma descoberta inédita: um tubarão-touro realizou a mais longa migração alguma vez registada para a espécie, percorrendo um total de 7.290 quilómetros ao longo de 839 dias.
A viagem extraordinária ligou os oceanos Índico e Atlântico e foi protagonizada por um espécime inicialmente marcado no estuário de Santa Lúcia, na África do Sul. Depois de ser identificado no sul do continente africano, o tubarão nadou em direcção a norte até ao arquipélago de Bazaruto, na costa moçambicana, antes de regressar a Mossel Bay, na África do Sul.
Contudo, de acordo com a African Shark Diaries, a aventura não terminou aí: o tubarão acabou por ser capturado por pescadores ao largo de Lagos, na Nigéria — estabelecendo assim o primeiro registo conhecido de uma migração transoceânica desta espécie.
O estudo publicado na revista científica Ecology, liderado pelo investigador Ryan Daly, não só documenta este percurso excepcional como levanta questões importantes sobre o impacto das alterações climáticas nos padrões de migração marinha. Em particular, chama-se a atenção para o facto de o tubarão ter atravessado o sistema de ressurgência de Benguela — uma região habitualmente demasiado fria para este tipo de animal. Segundo os cientistas, uma corrente invulgar de águas mais quentes terá criado um “corredor térmico”, permitindo a travessia.
Esta observação inédita sugere que barreiras naturais outrora eficazes — como gradientes de temperatura e zonas de ressurgência — poderão estar a tornar-se mais permeáveis devido ao aquecimento global. Tais mudanças nos padrões oceanográficos podem comprometer a função dessas barreiras suaves, permitindo deslocações que até aqui eram virtualmente impossíveis para determinadas espécies.
Em termos ecológicos, isto significa que a distribuição das espécies poderá alterar-se profundamente, criando novas comunidades biológicas com consequências ainda imprevisíveis para os ecossistemas regionais. Ao romper com limites naturais estabelecidos, estas migrações forçadas pelo clima podem desencadear fenómenos de competição, hibridização ou até extinção local de espécies menos adaptáveis.
Com esta migração notável — que inclui uma passagem estratégica pelas águas moçambicanas — o tubarão-touro torna-se símbolo de uma nova era nos movimentos de vida marinha, onde as barreiras geográficas e ambientais já não são o que eram. Resta saber se os ecossistemas costeiros, como os de Bazaruto, estarão preparados para acolher novas espécies visitantes num mundo em transformação.



Fotos: Sylvie Ayer/aquazoom/African Shark Diaries




