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Kambaku

Tubarões-touro com residência no Bazaruto percorrem milhares de quilómetros

Jul 6, 2026 |

Um novo estudo científico desenvolvido no Arquipélago do Bazaruto demonstra que este habitat marinho é crítico para tubarões-touro residentes e que é a base de onde percorrem milhares de quilómetros no Oceano ìndico.

O trabalho, publicado na revista científica Fishes, utilizou telemetria acústica passiva para acompanhar 17 indivíduos marcados localmente e outros 22 detectados na região, mas originários de outros pontos da costa sudeste africana.

O estudo foi realizado por investigadores moçambicanos e internacionais da Marine Megafauna Foundation, do Instituto Sul-Africano de Biodiversidade Aquática (SAIAB) e de várias universidades europeias rastrearam durante anos os movimentos de tubarões-touro (Carcharhinus leucas) ao longo de cerca de 2.300 quilómetros de costa, desde o Estuário do Rio Breede, na África do Sul, até ao Parque Nacional do Arquipélago de Bazaruto, na província de Inhambane.

Os resultados apontam para níveis elevados de residência no ecossistema marinho e costeiro de Bazaruto ao longo de todo o ano, com um índice máximo global de 0,45, o que significa que os animais foram detectados em quase metade dos dias de monitorização, chegando um indivíduo específico a atingir uma presença registada em 84% dos dias acompanhados.

A esmagadora maioria dos residentes permanentes são fêmeas adultas, cujos habitats centrais se concentram nos sistemas de recife ao largo da costa leste do arquipélago e nas águas costeiras junto à Península de San Sebastian. Os padrões sazonais apontam para uma maior actividade entre Abril e Setembro , o Outono e Inverno austrais, período que coincide com a descida das temperaturas da água e com maior dinâmica noutros pontos de agregação ao longo da costa sudeste africana.

A dimensão de conectividade regional deste estudo é uma das suas contribuições mais relevantes. A rede de receptores acústicos permitiu documentar movimentos regulares entre Moçambique e a África do Sul, com paragens intermédias em Ponta do Ouro, iSimangaliso e KwaZulu-Natal. Mas foi o comportamento de uma fêmea marcada em Bazaruto em 2020 que captou particular atenção.

Em 2023, o animal atravessou o Canal de Moçambique e foi detectado ao largo de Toliara, no sudoeste de Madagáscar, a uma distância mínima de 865 quilómetros. Regressou ao Seascape de Bazaruto em Junho de 2024, após uma ausência de 161 dias, o que traduz uma velocidade mínima de deslocação de 5,4 quilómetros por dia. Trata-se do primeiro registo documentado de um movimento de retorno entre Moçambique e Madagáscar para esta espécie nesta zona do Oceano Índico Ocidental.

Ainda mais extraordinária foi a trajectória de outro indivíduo incluído no mesmo estudo: uma fêmea adulta percorreu mais de 7.290 quilómetros desde Bazaruto até à Nigéria, contornando a ponta sul de África e atravessando para o Oceano Atlântico, constituindo o maior deslocamento alguma vez registado para a espécie e o primeiro movimento transoceânico documentado.

A análise espacial dos habitats centrais dos tubarões-touro marcados em Bazaruto revelou que 82% dessas áreas se encontram dentro das fronteiras das actuais áreas marinhas protegidas, designadamente o Parque Nacional do Arquipélago de Bazaruto e o Santuário Costeiro de Vida Selvagem de Vilanculos. Os restantes 18% localizam-se fora desses limites, em sistemas de recife ao largo da costa leste e no sector sudeste do parque, áreas actualmente sem qualquer enquadramento legal de protecção.

Os investigadores sublinham ainda que a inclusão formal de um habitat dentro dos limites de uma área protegida não garante, por si só, protecção efectiva: grande parte das zonas sobrepostas com os habitats centrais da espécie permite a prática de actividades de pesca. Fora das áreas protegidas, a única medida de salvaguarda vigente em Moçambique é um comprimento mínimo de captura de 150 centímetros, valor muito abaixo do tamanho de maturidade sexual da espécie.

Face às evidências reunidas, o estudo propõe uma abordagem de gestão a múltiplas escalas. A nível local, recomenda-se a extensão das fronteiras do Parque Nacional do Arquipélago de Bazaruto e do Santuário de Vilanculos para incorporar os recifes mais profundos situados a cerca de 1,5 a 2 quilómetros ao largo da Península de San Sebastian, bem como a implementação de restrições específicas a certas artes de pesca nessas áreas, nomeadamente a proibição de redes de emalhar junto aos sistemas de recife que constituem habitat central para a espécie. Os autores propõem igualmente o reforço da gestão coordenada entre as duas áreas protegidas, dada a forte conectividade interna documentada ao longo do Seascape.

A nível regional, os investigadores apelam ao desenvolvimento de planos transfronteiriços coordenados entre Moçambique e a África do Sul, com abertura a uma colaboração mais ampla no Oceano Índico Ocidental, e recomendam que Moçambique considere aderir ao Memorando de Entendimento sobre Tubarões da Convenção sobre Espécies Migratórias, a par do reforço de capacidade institucional e do acesso a mecanismos internacionais de financiamento.

Fotos: Marine Megafauna Foundation

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