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Kambaku

Vedações e coleiras fazem cair 76% os conflitos com fauna acompanhados pela MWA

Jul 28, 2026 |

Os conflitos com fauna bravia registados nas áreas onde opera a Mozambique Wildlife Alliance caíram 76 por cento de acordo com o relatório dos pirmeiros 6 meses de actividade desta ONG moçambicana.

De acordo com o balanço semestral da Mozambique Wildlife Alliance, a organização geriu 87 casos de conflito entre Janeiro e Junho, com 55 acções de resposta e prevenção, das quais 22 conduzidas pelas próprias comunidades.

A taxa de sucesso das respostas fixou-se em 97 por cento no período de Janeiro a Maio, com quatro meses a atingir eficácia total. O trabalho é desenvolvido em parceria com a Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC) e organiza-se em três pilares, intervenções veterinárias, conflito homem-fauna e um novo pilar de monitoria, avaliação e aprendizagem.

Contudo esta não é uma estatística nacional, mas o universo de casos acompanhados pela MWA nas regiões onde trabalha, entre as quais Parque Nacional de Maputo, Magoé, Cahora Bassa, Reserva do Niassa, Karingani, Massingir e várias coutadas como é o caso da Coutada 11 gerida pela Zambeze Delta Conservation ou de Panyame.

Ainda assim, o custo humano registado no semestre é significativo. Morreram cinco pessoas em consequência de conflito com animais selvagens e outras seis ficaram feridas, um balanço que a própria organização considera excessivo, assinalando cada caso “como um a mais”.

A comparação com o passado recente dá a medida da mudança. Num balanço anterior sobre o Parque Nacional de Magoé, a organização registava que só em 2025 morreram pelo menos 15 pessoas naquela área, dez ficaram gravemente feridas e houve mais de 60 incidentes de destruição de culturas e perturbação das comunidades.

O relatório da MWA refere também o trabalho realizado com a rede de Comunidades Agrícolas Protegidas, o principal instrumento de prevenção de conflitos. Estão operacionais 18 destas comunidades, máximo histórico do programa, sete delas criadas já em 2026, abrangendo 993 famílias em 344 hectares de terra agrícola vedada distribuídos por mais de duas paisagens.

Em Janeiro eram 779 as famílias cobertas. Outras sete comunidades estão aprovadas e à espera de vedação, com 46 locais em avaliação e quatro candidaturas rejeitadas, no âmbito de um compromisso que aponta para cem comunidades protegidas.

A organização indica que as vedações repeliram várias aproximações de elefantes sem perdas de culturas nem danos nas estruturas, e que as reparações identificadas em Junho foram concluídas na mesma semana.

No pilar veterinário foram realizadas mais de 85 intervenções em sete paisagens. Os elefantes concentraram o maior número, com 30 intervenções, das quais 29 de colocação de coleiras. Seguiram-se os leões, com 16 intervenções, entre 13 colocações de coleira, uma translocação e dois casos de ferimento, e os mabecos, com 15 intervenções, sobretudo translocações.

Foram ainda descornados cinco rinocerontes, translocados quatro ungulados e resgatados e libertados oito tartarugas, três pangolins, dois mochos e um macaco vervet. Só em Junho a equipa realizou mais de 40 intervenções, o mês mais intenso do ano, incluindo uma missão de sete dias na Coutada 11 com elefantes, leões e uma chita.

Entre os casos de terreno destacados está a recuperação de uma matilha de mabecos, uma das espécies de carnívoros mais ameaçadas de África. Depois de 14 animais se terem dispersado da Reserva de Karingani para a área de Massingir Safaris, a organização conduziu uma operação de captura faseada ao longo de várias semanas, tendo 11 sido imobilizados em segurança e devolvidos a Karingani, com um tratamento de ferimento em campo.

Noutro caso, na aldeia de Lissongile, na Reserva Especial do Niassa, um leão macho adulto caiu numa latrina. Com a comunidade a assegurar o perímetro, o veterinário Williamo imobilizou o animal para que a equipa o pudesse retirar e transferir para local seguro, sem ferimentos para o leão nem para a população. A operação envolveu o Niassa Lion Project, a Reserva de Vida Selvagem de Lugenda e guardiões do programa MOMS.

Em Junho, a equipa colocou coleiras de satélite em 20 manadas de elefantes na paisagem de Magoé no espaço de cinco dias, 15 no distrito de Magoé e cinco em Cahora Bassa, num trabalho com a BIOFUND, a MozRural, a ANAC, o Parque Nacional de Magoé e comunidades locais. Os dados de movimento alimentam em tempo real o programa Pastores de Elefantes, as comunidades agrícolas protegidas e os fiscais formados na plataforma EarthRanger, permitindo antecipar o risco antes de se converter em conflito.

O semestre incluiu cooperação transfronteiriça. Um leão que se dispersou a partir do Parque Nacional de Gonarezhou, no Zimbabwe, foi tratado de um ferimento provocado por armadilha de laço e recebeu coleira na Coutada 5, em articulação com o Gonarezhou Conservation Trust, o Endangered Wildlife Trust, a Peace Parks Foundation e a Akashinga.

Foram também assinados acordos de implementação com a Peace Parks Foundation para as paisagens de Massingir, Mabalane e Mapai, com elefantes a receberem coleiras nas zonas tampão de Massingir em Junho.

Em Angola, a organização realizou uma avaliação de conflito homem-fauna nas províncias de Cuanza Norte, Uíge e Bengo, com o Elephant Crisis Fund, formando guardas florestais ligados ao INBAC com vista a futuras intervenções junto de elefantes de floresta.

Na vertente de saúde única foram vacinados 212 cães contra a raiva e esterilizados dois, tendo a campanha de Maio em Moamba atingido 98 por cento de cobertura, no quarto ano consecutivo de campanhas na interface entre fauna bravia e comunidades. Em Abril tinham sido vacinados 126 cães em Namaacha.

O reforço de capacidades locais envolveu 832 pessoas formadas no semestre, entre comunidades, fiscais e unidades de resposta rápida, com 343 formandos só em Maio, num alcance mensal recorde que cobriu nove comunidades de Mussenguezi, em Magoé, cada sessão acompanhada de kits de mitigação. Em Fevereiro tinham sido formados 221 membros de comunidades em 11 aldeias em torno do Parque Nacional de Magoé.

Fiscais do mesmo parque frequentaram ainda um programa de imersão de 14 dias em Namaacha, entre Abril e Maio, e nove receberam formação em EarthRanger para seguimento de patrulhas em tempo real. As unidades de resposta rápida foram treinadas em procedimentos de conflito e resposta em motociclo, cabendo agora às comunidades liderar as respostas. Uma parceria com a Still Standing levou actividades de conservação a alunos de escolas públicas de Maputo, com demonstrações de telemetria e jogos.

As equipas de conflito homem-fauna completaram 306 dias de trabalho de campo entre Março e Junho, percorreram 39.967 quilómetros, atenderam mais de 1.340 chamadas relacionadas com conflito e aplicaram 64 instrumentos de mitigação durante respostas activas.

O pilar de monitoria, avaliação e aprendizagem foi lançado em Maio e liga operações de campo, a carteira de comunidades protegidas, a plataforma EarthRanger e o reporte aos financiadores. Em Junho todas as 18 comunidades operacionais foram contactadas, pelo segundo mês consecutivo, através de 29 contactos entre visitas de campo e chamadas telefónicas, estando agora activa uma rotina quinzenal de monitoria comunitária.

A plataforma EarthRanger está construída na totalidade e funcional a 95 por cento em tempo real. A organização registou ainda 15 melhorias implementadas no programa em Maio e Junho com base em evidência de campo, oito relatórios entregues a financiadores dentro do prazo, auditorias financeiras e de gestão pela BDO Moçambique e avaliação de impacto social e ambiental pela IMPAAKT.

Foto: MWA

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