Ago 18, 2026 |
Cinco ovos de cegonha bico-de-sapato foram incubados artificialmente e eclodiram com sucesso nas zonas húmidas de Bangweulu, no norte da Zâmbia.
De acordo com African Parks, organização que gere a área em parceria com o governo zambiano, existiam até agora apenas dois casos documentados de ovos desta espécie incubados artificialmente com êxito, o que faz do trabalho desenvolvido em Bangweulu um dos primeiros do género.
O bico-de-sapato, Balaeniceps rex, está classificado como Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Segundo a BirdLife International, a população mundial ronda os cinco mil a oito mil indivíduos, dos quais entre 3300 e 5300 são adultos reprodutores, distribuídos de forma dispersa entre o Sudão do Sul e a Zâmbia. A perda de habitat, os fogos, a perturbação dos ninhos e o comércio ilegal de aves são as principais ameaças.
Bangweulu é uma das áreas mais importantes para a espécie na África Austral. Um estudo publicado na revista Scientific Reports, baseado no seguimento por GPS de sete aves ao longo de cinco anos, concluiu que os bico-de-sapato permanecem nestas zonas húmidas durante todo o ano e percorrem menos de três quilómetros por dia em 81 por cento dos dias observados.
Conforme dá conta a African Parks, a equipa não dispunha de qualquer modelo estabelecido a seguir, uma vez que não existiam parâmetros de incubação, protocolos veterinários nem orientações de maneio específicos para a espécie. Os ovos são examinados à contraluz, técnica conhecida como candling, que permite acompanhar o desenvolvimento da cria dentro da casca, e pesados para verificar se a perda de humidade se mantém entre 13 e 15 por cento do peso inicial. De dois em dois dias são borrifados com água morna, à semelhança do que fazem os progenitores nos ninhos selvagens.
Moçambique não tem registo da cegonha-bico-de-sapato, cuja distribuição termina a sul precisamente nas zonas húmidas de Bangweulu, mas enfrenta o mesmo tipo de problema na conservação de outras aves aquáticas ameaçadas.
Segundo um estudo de Carlos Bento e Richard Beilfuss publicado na revista Ostrich e disponível na biblioteca da BIOFUND, o delta do Zambeze albergava um núcleo de cerca de 120 casais reprodutores de grou-carunculado, espécie que depende exclusivamente dos tubérculos de juncos do género Eleocharis. Os autores concluíram que a regulação do caudal do Zambeze reduziu a capacidade de carga das planícies aluviais, ao suprimir a inundação sazonal necessária à produção desses tubérculos. Esta experiência da African Parks na Zâmbia poderá trazer luz a espécies que estão em risco em Moçambique.
A African Parks gere actualmente 23 áreas protegidas em 13 países africanos, entre as quais o Parque Nacional do Arquipélago de Bazaruto, em Moçambique, gerido em parceria com a Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC).

Fotos: African Parks




