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Kambaku

Tradições culturais pressionam espécies ameaçadas, mas há soluções para preservar a fauna africana

Ago 5, 2025 |

Face à crescente ameaça de extinção de espécies selvagens em África provocada pelo uso intensivo de animais em práticas culturais e religiosas, estão a ser implementadas iniciativas que procuram conciliar a preservação da biodiversidade com o respeito pelas tradições ancestrais.

De acordo com a FairPlanet o uso de partes de animais como peles, ossos, chifres, garras, vísceras e gordura é comum em mercados de medicina tradicional africana, como o de Mbare, em Harare, no Zimbabwe, como é relatado no artigo mas também ocorrem em mercados como Xipamanine, em Maputo ou outros no continente africano.

Estas substâncias são comercializadas como soluções para doenças como o cancro ou o HIV/SIDA, bem como para fins espirituais, como atrair sorte, poder ou sucesso profissional.

Este fenómeno, amplamente disseminado em África — com práticas documentadas em países como Zimbabwe, África do Sul, Botsuana e Namíbia — alimenta um mercado clandestino de grande escala que contribui para o desaparecimento acelerado de espécies como leões, leopardos, hienas, rinocerontes, abutres, águias e serpentes.

De acordo com Oscar Nkala, jornalista de investigação especializado no comércio ilegal de fauna, existem mais de 200 mil curandeiros registados na África do Sul e 100 mil no Zimbabwe, sendo que a maioria actua fora de qualquer controlo oficial, o que torna difícil avaliar o real impacto desta actividade.

As motivações dos utilizadores vão desde curandeiros iniciados à procura de poderes, até empresários que desejam atrair clientela ou eliminar concorrentes. Também políticos, líderes religiosos e gestores de organizações recorrem a amuletos e poções, por vezes produzidos com órgãos de felinos selvagens.

Perante este cenário alarmante, organizações de conservação como a Panthera têm desenvolvido alternativas inovadoras. O programa Furs For Life, criado em 2013, fornece peles sintéticas de alta qualidade — chamadas Heritage Furs — como substituto sustentável das verdadeiras. Esta iniciativa, inicialmente dirigida à Igreja Baptista Nazareth (Shembe), que usa peles de leopardo em cerimónias religiosas, já distribuiu mais de 22 mil peles falsas por comunidades da África Austral, contribuindo para a estabilização de algumas populações de felinos selvagens.

Tristan Dickerson, coordenador do programa, sublinha a importância de colaborar com os líderes culturais e religiosos para garantir a aceitação das peles artificiais. O sucesso da campanha levou à sua expansão para países como Zâmbia e Malawi, onde outras tribos utilizam peles de felinos nas suas práticas rituais.

Especialistas como a professora Vivienne Williams, da Universidade de Witwatersrand, defendem que é possível proteger simultaneamente a herança cultural e a biodiversidade, desde que se respeite o contexto tradicional das comunidades envolvidas. Nkala reforça que a chave está em transformar gradualmente atitudes culturais, pois se as espécies desaparecerem, também as culturas que delas dependem correm o risco de se extinguir.

No entanto, outros académicos como o Dr. Stasja Koot, da Universidade de Wageningen e da Universidade de Joanesburgo, alertam que as causas da extinção vão além do uso religioso de animais. Aponta factores estruturais mais profundos — como o land grabbing e a mercantilização da conservação — que acentuam desigualdades históricas e sociais, tornando urgente uma abordagem mais ampla e transformadora.

Foto: The Guardian

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