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Kambaku

Estudo revela que metade dos ecossistemas de Moçambique está ameaçada

Fev 24, 2026 |

Avaliação da Wildlife Conservation Society e do Governo moçambicano aplica a Lista Vermelha da UICN e identifica falhas graves na rede de conservação nacional.

O estudo revela que mais de metade dos ecossistemas terrestres de Moçambique está hoje classificada como ameaçada, segundo informação recém-publicada que recorre à metodologia da Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN, de acordo com a Wildlife Conservation Society Moçambique.

A análise conclui que 53% dos ecossistemas avaliados se encontram ameaçados. Além da perda directa de habitat, o estudo aponta a degradação generalizada e a perda de integridade ecológica como factores determinantes do risco, bem como os impactos associados às alterações climáticas.

Os maiores impactos concentram-se, de acordo com os resultados, nas pradarias temperadas sub-húmidas e nas savanas de capim pírico. Noutros casos, a ameaça não decorre tanto da redução de área, mas de vulnerabilidades estruturais: ecossistemas como as florestas tropicais-subtropicais de terras baixas podem estar em risco por terem distribuições naturalmente restritas e por enfrentarem degradação contínua.

Publicado na revista científica Conservation Science and Practice, a investigação é conduzida pela Wildlife Conservation Society (WCS) em parceria com o Governo de Moçambique e com contributos de várias instituições e especialistas nacionais como o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique, a Universidade Eduardo Mondlane, a UICN Moçambique, a WCS Moçambique, e pretende reforçar a capacidade do país para integrar dados ecológicos no planeamento territorial, nas decisões públicas e no reporte internacional de metas ambientais.

O trabalho enquadra-se no Quadro Global da Biodiversidade de Kunming–Montreal, que coloca os ecossistemas no centro das políticas de conservação, com objectivos ligados ao aumento da área protegida, à integridade ecológica, à conectividade e à resiliência.

Para os autores, cumprir essas metas exige um retrato robusto do tipo de ecossistemas existentes, da sua distribuição e do seu estado de conservação, algo que esta avaliação procura sistematizar para Moçambique.

Um dos alertas mais fortes prende-se com a protecção efectiva. O estudo refere que a cobertura de ecossistemas ameaçados dentro de áreas protegidas e de Key Biodiversity Areas é substancialmente insuficiente. Na avaliação são ainda identificados sete ecossistemas Criticamente Ameaçados que permanecem totalmente fora da rede nacional de áreas de conservação, o que aponta prioridades claras para expansão e para o cumprimento das metas do Quadro Global da Biodiversidade.

Os autores sublinham que os resultados não ficam no plano académico: a avaliação já está a ser utilizada para influenciar políticas nacionais de conservação e para enquadrar a regulamentação de esforços de conservação do sector privado. O estudo defende também a necessidade de acções direccionadas tanto para proteger ecossistemas ameaçados como para salvaguardar ecossistemas de elevada integridade, combinadas com políticas que reduzam os impactos ambientais do desenvolvimento industrial.

Entre as recomendações, destaca-se ainda o reforço do planeamento de uso do solo a nível local, incluindo o ordenamento em terras comunitárias, como forma de diminuir a pressão para conversão de ecossistemas naturais em áreas agrícolas, uma dependência que, segundo os autores, está ligada à procura de alimento e rendimento por parte de populações rurais.

Ao aplicar de forma sistemática a Lista Vermelha de Ecossistemas, o estudo apresenta Moçambique como um caso de referência para outros países que pretendam operacionalizar o Quadro Global da Biodiversidade, transformando dados sobre perda, degradação e integridade ecológica em decisões concretas de planeamento e conservação.

Principais autores e instituições incluem Kendall R. Jones e Hugo M. Costa (Wildlife Conservation Society), Mervyn Lötter (Mpumalanga Tourism & Parks Agency, África do Sul), Tereza Alves (Instituto de Investigação Agrária de Moçambique), Célia Macamo (Universidade Eduardo Mondlane), Denise Nicolau (UICN) e Muri G. Soares (National Fund for Sustainable Development), entre outros contributos.

Foto: The Cool Down

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