Jul 13, 2026 |
O Parque Nacional de Maputo (PNM) iniciou um novo projecto de reflorestação dunar para proteger os frágeis ecossistemas litorais do sul de Moçambique num trabalho conjunto com as comunidade locais.
Esta vasta operação ambiental concentra-se no litoral da Ponta do Ouro até Santa Maria, uma área de nidificação para 80% das espécies de tartarugas ameaçadas e emblemáticas de Moçambique, nomeadamente a tartaruga-cabeçuda e a tartaruga-de-couro, e tem como objectivo erradicar espécies vegetais invasoras para permitir o renascimento da flora nativa, como conta o PNM.
Ao reintroduzir plantas originais nas dunas degradadas, a iniciativa assegura a salvaguarda da biodiversidade e fortalece a resiliência do território face aos severos efeitos da erosão e das condições meteorológicas extremas, proporcionando em simultâneo novas oportunidades de subsistência para a população envolvente.
O esforço de conservação costeira é executado através de uma parceria que envolve o próprio Parque Nacional de Maputo, a Peace Parks Foundation, o Blue Action Fund e a cooperação alemã através do GIZ, sendo co-financiado pela União Europeia e pelo Ministério Federal Alemão para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (BMZ), e contando com a colaboração da Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC), inserindo-se no âmbito da iniciativa Prosper Azul.
A urgência desta acção tornou-se evidente após se constatar a acelerada degradação paisagística. Clemente Ntauazi, gestor de projecto do Blue Action Fund e responsável do PNM, sublinha a motivação por detrás dos trabalhos: “então, uma das ações previstas, portanto, neste projeto é a restauração das dunas. Constatamos que ao longo da nossa costa na baia de Maputo e que várias vão-se degradando”.
No terreno, o grande desafio prende-se com antigas plantações não nativas, cujas características se revelaram profundamente nefastas para o equilíbrio local. Neste momento existem 9 400 metros quadrados de floresta com casuarinas, árvores plantadas há mais de 50 anos com a intenção de estabilizar as dunas, mas que destroem o solo e expulsam espécies autóctones e assim colocam em causa toda a duna, parte importante de todo o ecossistema. A área foi dividida em 17 zonas de plantação onde as árvores exóticas estão a ser selectivamente removidas.
Sahha Clark proprietário e director da Living Art Landscaping, explica que “o problema de ter algo que não é natural, como estas casuarinas, é que matam toda a flora nativa que cresce debaixo delas. Nada cresce. A [caruma] e as pinhas caem sobre a flora existente, sufocando-a e matando-a, não dando espaço para o crescimento das plantas nativas”. A técnica adoptada pelas equipas obedece a um processo faseado de desmatação em xadrez e imediata replantação, onde uma força de trabalho de 10 pessoas da comunidade local foi equipada com ferramentas, uniformes e equipamento de protecção.
O sucesso prévio de um teste inicial numa área restrita de 400 metros quadrados ditou a expansão dos trabalhos. Devido ao sucesso do projecto-piloto, a Peace Parks Foundation conseguiu financiamento para poder continuar o resto do projecto, que é muito maior.
Gavin Shaw, Chefe de Operações e Desenvolvimento da Peace Parks Foundation no Parque Nacional de Maputo, afirma: “a conclusão da primeira fase de restauração de 400 m² demonstra como intervenções direcionadas, a participação da comunidade e parcerias a longo prazo podem restaurar ecossistemas costeiros degradados”.
Por sua vez, Miguel Gonçalves, Administrador do Parque Nacional de Maputo, sublinha: “o projeto de dois anos para reabilitar uma secção de 9.000 m² das praias do sul da Ponta do Ouro ajudará a estabilizá-las e a melhorar a biodiversidade. A longo prazo, o objetivo é fortalecer a resiliência da biodiversidade costeira”.
Para além do óbvio ganho ecológico, a integração dos residentes locais constitui o pilar que sustenta o êxito e a longevidade da missão. Os responsáveis do projecto destacam que este envolvimento directo da vizinhança destes ecossitemas é o que garante a verdadeira protecção do reduto natural a longo prazo. O ganho financeiro directo é um dos maiores trunfos sociais da iniciativa. Um dos membros da comunidade, actualmente empregado nas operações de limpeza e recuperação da orla da Baía de Maputo, expressou a relevância dos rendimentos auferidos.
Lourenço Matchoco, trabalhador e membro de uma comunidade local do PNM, refere que “a importância deste trabalho é que vai proteger a costa e evitar a erosão”, notando que, com as novas plantas, “haverá [agora] flor para os passarinhos poderem comer e as abelhas também. Também é importante referir que há envolvimento da comunidade local. Sabemos perfeitamente que um trabalho como este cria aquilo que nós chamamos de apropriação comunitária, como também a preservação em si da área. Posso dizer assim, com esse valor ganho, com esse trabalho que estou a fazer aqui, consigo alimentar a minha família, consigo também respeitar os meus pais, quase tudo isso aí é a minha família”.
Os sinais de recuperação botânica já são visíveis na zona abrangida. O objectivo dos parceiros ambientais passa agora por alargar paulatinamente a área de intervenção costeira, assegurando que o litoral moçambicano recupera a sua robustez e que o desenvolvimento social coexiste em perfeita harmonia com um meio ambiente são e sustentável.



Fotos e vídeo: Peace Parks Foundation




