Abr 13, 2026 |
A Conferência da Economia de Vida Selvagem reuniu em Maputo cerca de 170 participantes para discutir o papel estratégico da conservação no desenvolvimento económico.
Sob o lema “Pelo desenvolvimento de uma economia sustentável da vida selvagem em Moçambique”, o encontro foi promovido pela Associação Moçambicana de Operadores de Safari (AMOS), em parceria com a Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC) e a Fundação para a Conservação da Biodiversidade (BIOFUND), contando com financiamento do Millennium Challenge Corporation (MCC), através do programa CLCR. Realizada nos dias 8 e 9 de Abril, afirmou-se como um espaço central de articulação entre conservação da biodiversidade, crescimento económico e responsabilidade colectiva no país.
No final dos trabalhos, foi apresentada a Declaração sobre Economia de Vida Selvagem em Moçambique, que reafirma o reconhecimento deste sector como parte integrante do capital natural do país. O documento defende a sua integração nas políticas públicas e nos instrumentos de ordenamento territorial, com vista a promover simultaneamente a conservação, o crescimento económico e o bem-estar das populações, de acordo com o BIOFUND.
Outro dos pontos críticos abordados foi a necessidade de desenvolver mecanismos financeiros sustentáveis que garantam a viabilidade a longo prazo da economia de vida selvagem, posicionando-a como um sector estruturante para Moçambique.
Na sessão de encerramento, o Ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Mito Albino, destacou o compromisso do Governo com a implementação das recomendações saídas da conferência, afirmando que “o Ministério fará tudo o que estiver ao seu alcance para cumprir a parte que lhe compete nesta declaração, contando com o apoio e o engajamento de todos os intervenientes”.
O governante sublinhou ainda que “reafirmamos o nosso compromisso pleno com a economia da vida selvagem, assegurando a o fortalecimento de políticas de conservação, a criação de um ambiente favorável ao investimento e a valorização do papel do sector privado e das comunidades, para que este sector contribua de forma efectiva para o desenvolvimento sustentável do país.”
O evento juntou representantes de áreas protegidas, coutadas, operadores turísticos, instituições académicas, entidades governamentais, organizações da sociedade civil e comunidades locais de várias províncias, num ambiente de partilha de conhecimento e construção de soluções conjuntas.
O primeiro dia da conferência ficou marcado pela ênfase na valorização do capital natural, na partilha equitativa de benefícios e na tomada de decisão baseada em dados. Foram também apresentadas experiências da região da África Austral, com destaque para Namíbia, Zimbabwe e África do Sul, bem como boas práticas nacionais, incluindo modelos de gestão em coutadas e abordagens à mitigação do conflito Homem–Fauna Bravia.
No segundo dia, o enfoque recaiu sobre o desenvolvimento comunitário e a criação de cadeias de valor associadas à vida selvagem, reforçando o papel das comunidades como actores centrais na conservação.
A conferência incluiu ainda contributos de países da África Austral, como Namíbia, Zimbabwe e África do Sul, permitindo a comparação de diferentes modelos de gestão da vida selvagem. Foram igualmente apresentadas experiências nacionais, com destaque para boas práticas em coutadas, bem como abordagens à mitigação do conflito entre comunidades e fauna bravia.
Ao longo dos dois dias, ficou consolidada a ideia de que conservação e desenvolvimento económico devem caminhar de forma integrada, sendo reiterado que a sustentabilidade da biodiversidade depende da sua capacidade de gerar valor económico e benefícios directos para as comunidades locais.
Segundo a AIM, para Carlos Santos, presidente da BIOFUND, o sector já demonstra relevância económica, mas continua aquém do seu potencial: “há sinais claros de que a vida selvagem já tem um peso importante, mas pode contribuir muito mais para a economia nacional”.
Já o presidente da AMOS, Adamo Valy, considerou que o encontro permitiu redefinir prioridades com base em experiências regionais “o papel dos operadores em áreas remotas, onde muitas vezes prestam apoio directo às comunidades, é importante porque abre caminho a uma maior coordenação institucional, tornando o sector mais competitivo e sustentável”.
Paralelamente aos debates da conferência, o ministro chamou a atenção para outro desafio crítico da gestão da vida selvagem na região: o aumento da população de elefantes na África Austral. Segundo o governante, este crescimento, impulsionado por políticas de conservação bem-sucedidas, exige agora uma resposta coordenada entre países.
“É preciso fazer alguma coisa, mas tem de ser um esforço regional para que possamos realmente ter uma população de elefantes equilibrada em relação à capacidade de sustentação das nossas áreas de conservação”, afirmou.
O tema ganha particular relevância em províncias como Niassa, onde o secretário de Estado Silva Fernando Livone alertou para o agravamento dos conflitos entre humanos e fauna bravia, associados à pressão crescente sobre os territórios.
De acordo com o Diário Económico, dados oficiais indicam que, em 2023, as mortes causadas por ataques de animais selvagens quase triplicaram, atingindo 159 vítimas em todo o país. Entre 2019 e 2023, estes incidentes resultaram ainda na destruição de 955 hectares de culturas agrícolas, evidenciando o impacto directo nas comunidades locais.
Como balanço, a conferência permitiu alinhar prioridades entre os principais actores do sector, consolidar consensos em torno da integração entre conservação e desenvolvimento económico e evidenciar desafios estruturais críticos, como a inclusão de jovens, o financiamento e a gestão sustentável da fauna. O encontro reforçou ainda a necessidade de uma abordagem regional coordenada para responder a pressões crescentes sobre os ecossistemas e garantir a sustentabilidade a longo prazo da economia da vida selvagem em Moçambique.




