Abr 21, 2026 |
Apenas 1,2% das áreas cruciais para tubarões e raias no Oceano Índico Ocidental beneficia de protecção total contra a pesca. Moçambique é muito relevante na protecção em pontos chave.
Uma nova avaliação científica concluiu que a rede de habitats essenciais para tubarões e raias no Oceano Índico Ocidental continua amplamente desprotegida, apesar da sua importância para a sobrevivência de dezenas de espécies ameaçadas, de acordo com a WCS Moçambique.
Entre 2022 e 2023, foram identificadas 125 Áreas Importantes para Tubarões e Raias, conhecidas pela sigla inglesa ISRAs, que cobrem mais de 2,8 milhões de quilómetros quadrados, o equivalente a cerca de 10% das águas superficiais da região.
Segundo o estudo, estas zonas albergam 104 espécies de tubarões, raias e quimeras, o que representa 39% do total registado no Oceano Índico Ocidental. Deste conjunto, 76% estão classificadas como ameaçadas de extinção na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Apesar desse valor ecológico, o grau de salvaguarda formal continua reduzido. Apenas 7,1% das ISRAs sobrepõem-se a Áreas Marinhas Protegidas e só cerca de 1,2% se encontram em zonas onde a pesca está totalmente proibida. As protecções mais fortes concentram-se nas Seychelles, no Arquipélago de Chagos e em partes da costa moçambicana, mas a maioria destas áreas permanece vulnerável.
Moçambique surge como um dos países relevantes nesta rede regional, com sete áreas identificadas ao longo da sua costa. Algumas coincidem com zonas já reconhecidas pela sua importância para a conservação marinha, como o Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto, o Parque Nacional de Maputo e a Área de Protecção Ambiental das Quirimbas do Norte.
Segundo especialistas como a Stela Fernando do Instituto Oceanográfico de Moçambique (InOM), o Rhett Bennett da Wildlife Conservation Society (WCS) e Jesse Cochran do grupo de especialistas de tubarões da IUCN, “a costa moçambicana é essencial para a reprodução e berçários de tubarões e raias, mas a pressão da pesca e de outras atividades humanas exige medidas de gestão eficazes que conciliem conservação e meios de subsistência das comunidades costeiras”.
Para a WCS, os resultados mostram simultaneamente a dimensão do problema e uma base concreta para actuar. A organização considera que a rede de ISRAs pode servir de referência científica para orientar políticas públicas, reforçar a monitoria ecológica, ampliar a conservação marinha e apoiar as comunidades costeiras que dependem da pesca.
A investigação foi coordenada no âmbito do grupo de especialistas em tubarões da IUCN e recorreu a várias fontes de informação, entre as quais observações visuais, monitoria em mercados de peixe, contributos de ciência cidadã e outros dados científicos. O objectivo foi identificar áreas-chave para alimentação, reprodução, crescimento juvenil e permanência destas espécies, muitas delas sob crescente pressão humana.
Mesmo com níveis ainda reduzidos de protecção efectiva, o estudo sublinha que estas áreas oferecem um mapa claro dos habitats mais sensíveis e estratégicos para tubarões e raias, num momento em que a conservação marinha enfrenta o desafio de compatibilizar a protecção da biodiversidade com a subsistência das populações locais.
Foto: WCS Moçambique




